O fascínio pela descoberta.
C
iência se faz com pessoas – e é nelas que focamos. emREDE é um espaço dedicado aos pesquisadores de diferentes áreas e cantos do mundo que respondem à pergunta: “O que te fascina na sua pesquisa?” – revelando as motivações que vão além dos artigos e laboratórios. Mais do que divulgar trabalhos, cultivamos uma comunidade: aproximamos mentes inquietas, criando pontes entre disciplinas e geografias. O resultado? Um mapa vivo do fazer científico, em constante expansão. Nesta edição, os pesquisadores Isabella Ogeda, Janaina Hokoç Fernandes e Luan Santos nos contam o que faz com que se movam em direção a descobertas de novas respostas para problemas que os deixam intrigados.

Isabella Ogeda é graduada em Pintura pela Escola de Belas Artes do Rio de Janeiro (UFRJ) e possui mestrado no setor Art+Espace da EnsAD (Paris). Continuou seus estudos na EAV Parque Lage, Chelsea College of Arts e Central St Martins. Atualmente, busca Certificação em Estudos Transdisciplinares no The New Centre for Research & Practice. Desde 2022, é assistente de pintura de Marcela Cantuária, trabalhando em grandes encomendas para o Museu PAMM e o Paço Imperial. Isabella vive entre Paris e o Rio de Janeiro, desenvolvendo projetos de arte e ciência com o GFZ-Potsdam e o Museu Nacional do Rio de Janeiro. Em 2025, dará palestras sobre técnicas de pintura na UAIIN, na Colômbia. Ela já expôs no Brasil e internacionalmente em espaços como Gaite Lyrique e 6b Art Center, em Paris, e Giv Lowe Gallery, em Lisboa.
O QUE TE FASCINA NA SUA PESQUISA?
Minha pesquisa investiga a intersecção entre a ontologia mítica latino-americana – como o Perspectivismo de Eduardo Viveiros de Castro e a Xawara de David Kopenawa – e a ciência contemporânea, mantendo conexão com a memória de corpos humanos e não humanos. Colaboro com geocientistas, químicos e filósofos, buscando fomentar a sensibilidade criativa e a agência do pesquisador, pois acredito que cientistas e artistas compartilham semelhanças, apesar de operarem em sistemas distintos.
O que me fascina na minha pesquisa é a sobreposição entre a prática artística e o método científico como ferramentas para o bem comum. Atualmente, estou engajada no projeto Cosmo Cookbook, em parceria com a geóloga Victoria Milanez Fernandes. Este projeto investiga a escala de cinzas entre a imaginação e a ciência moderna, processando amostras de quartzo do Rio Santa Cruz, na Patagônia, em busca do Berílio-10, um elemento raro formado por raios cósmicos. Analisando essas amostras, conseguimos informações sobre a idade da bacia do rio e como a paisagem se moldou em resposta às mudanças climáticas.
Estamos comprometidos em criar uma inversão dupla, compilando contribuições artísticas a partir de pesquisas laboratoriais, capturando a sensibilidade dos pesquisadores climáticos. O Rio Santa Cruz, um dos locais mais preciosos da Patagônia, enfrenta grande perigo com sua represação prevista até 2027. Esperamos, por meio da criação de imagens e pesquisas, dar visibilidade a essa causa.

Janaina Hokoç é técnica em Biocombustíveis pelo Instituto Federal da Bahia e estudante do curso de Licenciatura em Ciências Biológicas na Universidade Federal de Viçosa/MG. Atualmente, é estagiária do Laboratório de Evolução de Invertebrados Aquáticos da UFV, pesquisando a biologia reprodutiva de Ophioderma appressum no Atlântico Sul tropical. Além disto, participa como Educadora Ambiental no Grupo de Estudos de Animais Selvagens da UFV.
O que te fascina na sua pesquisa?
A minha história com o oceano começou no berço, com meu pai, um pescador tradicional de jangada, e minha mãe, bióloga marinha. Eu nasci na Bahia, em um pequeno vilarejo chamado Cumuruxatiba, onde meus pais trabalhavam com turismo de observação de baleias-jubarte, de julho a outubro. Desde pequena, acompanhei minha mãe nos passeios e, assim, criei uma grande afinidade com o mar. De um lado, ela me falava sobre a conservação dos oceanos e trazia um lado mais científico das coisas, de outro, meu pai sempre mencionava o mar como fonte de sustento e trabalho.
Hoje, em uma universidade federal, trabalhando em uma pesquisa científica, consigo entender a importância das interações oceânicas. Mas não só as interações entre os animais e plantas que vivem lá, e sim a grande importância da nossa interação com o oceano. O mar está lá, seguindo um fluxo constante de marés e ondas que vêm e vão a cada segundo. Um simples mergulho consegue nos ensinar que nada é previsível e que observar e ir com calma é a melhor solução.
Durante um voluntariado no Projeto Coral Vivo, tive a oportunidade de conhecer uma pesquisadora chamada Alessandra Lopes, que posteriormente se tornou uma grande amiga e colega de trabalho. Na época, Alessandra estava fazendo um estágio no projeto, que acabou virando seu trabalho de TCC, sobre o efeito do ferro na gametogênese do Ophioderma appressum. Coincidentemente, quando voltei para a universidade, entrei no laboratório do qual ela faz parte, e foi uma felicidade indescritível. Depois de algum tempo, ela e nossa orientadora, Amanda Cunha, perguntaram se eu tinha interesse em participar de uma pesquisa com essa espécie e se eu tinha disponibilidade para fazer as coletas na base do Projeto Coral Vivo, na Bahia. Sem dúvidas, minha resposta foi positiva e hoje estamos desenvolvendo um lindo trabalho.
Uma das coisas que me fascina nessa pesquisa é poder estar em contato com um animal que esteve presente na minha vida desde a infância, quando minha mãe me levava para andar e observar as poças de maré que ficam expostas nas marés baixas. Além disso, estudar um animal marinho tão pequeno em um lugar onde não há mar é mostrar que, independentemente de onde cada ser humano esteja, o mar está conectado a nós.

Doutor em planejamento Energético e Ambiental
Luan Santos é professor da Faculdade de Administração e Ciências Contábeis (FACC/UFRJ) e do Programa de Engenharia de Produção (COPPE/UFRJ). Pós-doutor em Economia da Mudança do Clima e do Meio Ambiente pelo Wegener Center für Klima und Globalen Wandel, Universität Graz, Áustria. É Doutor e Mestre em Planejamento Energético e Ambiental pelo Programa de Planejamento Energético (COPPE/UFRJ), bem como graduado em Matemática (IME/UFF) e em Administração (FACC/UFRJ). Coordenador do grupo Finanças e Investimentos Sustentáveis (gFIS), lidera também a área de “Climate and Carbon Pricing” da Brazilian Alliance for Sustainable Finance and Investment (BRASFI) e é membro do Laboratório de Inovação Financeira (LAB).
O QUE TE FASCINA NA SUA PESQUISA?
Minhas pesquisas se relacionam aos temas das finanças sustentáveis, precificação de carbono e políticas climáticas. Coordeno o grupo Finanças e Investimentos Sustentáveis (gFIS) na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), cujo principal objetivo é produzir estudos relacionados aos temas das finanças e dos investimentos sustentáveis de forma integrada, avaliando aspectos econômicos, ambientais, climáticos, sociais, políticos, regulatórios e institucionais.
Meu maior interesse se refere à integração dos aspectos de sustentabilidade nos processos de tomada de decisão dos atores do mercado financeiro, nas políticas do mercado financeiro e nos arranjos institucionais e de mercado que contribuem para a conquista de um crescimento forte, sustentável, equilibrado e inclusivo.
O que me fascina é poder participar da promoção e do desenvolvimento de instrumentos para financiar a transição para um caminho socioeconômico sustentável. Investimentos sem precedentes são necessários para fechar a lacuna de financiamento, de modo que o setor financeiro desempenha um papel fundamental na mobilização e canalização desses recursos financeiros para investimentos de baixo carbono, sustentáveis e resilientes.

