O
pensamento de Tim Ingold me vem muitas vezes ao escrever esta coluna, pois ele é, certamente, mestre em dissolver fronteiras entre biologia, antropologia e arte. Em Trazendo as coisas de volta à vida: emaranhados criativos num mundo de materiais, Ingold nos convida a ver o mundo como uma teia de processos em fluxo. Tendemos a imaginar a floresta como algo “lá fora”, separada do mundo urbano. Uma árvore é derrubada, sua madeira cortada, lixada, montada e se torna uma cadeira – fim da história. Mas, para Ingold, a vida dos materiais não termina quando lhes damos forma: ela continua por outros caminhos.
A madeira de uma cadeira, por exemplo, não deixa de ser floresta quando deixa de ser árvore. Carrega em si uma história viva – o crescimento dos anéis, a ação da chuva, do vento, da luz, o corte, o tratamento, o uso. Mesmo transformada em móvel, continua em processo: incha com a umidade, range com a temperatura, escurece com o tempo. A floresta não está distante, mas presente, expandida nas coisas do mundo.
O conceito de “cadeirar” como verbo (inspirado em Ingold, que entende o “fazer” como processo, não produto) revela essa correspondência entre natureza, cultura e matéria. No seu pensamento, nada é fixo: tudo está em devir, entrelaçado em fluxos de materiais e forças. Sua cadeira, portanto, não é estática – ela “cadeira”, assim como o rio corre ou a brisa sopra. Ela participa de uma trama de relações: floresta, corpo, gesto, uso e memória.
No simples ato de sentar ocorre uma correspondência profunda. O corpo, com peso e calor, responde à cadeira; a cadeira, com forma e solidez, responde ao corpo. Nesse encontro, dialogamos com a floresta – conectando-nos a um fluxo de vida que começou em uma semente e agora habita a sala.
A “linguagem silenciosa da floresta” não é algo a ser decifrado em uma expedição remota: ela está na textura da mesa, no cabo da ferramenta, no piso que range sob os pés. São veios e fibras que traçam um caminho da mata até nós. A floresta se expande e nos acontece a todo momento.
Na bioética, esse entendimento propõe um salto: se tudo está emaranhado – humanos, plantas, minerais, microrganismos – é preciso pensar o cuidado e a responsabilidade nesses fios entrelaçados. Trata-se de uma ética da interdependência, que desafia a separação entre cultura e natureza, sujeito e objeto.
No diálogo entre arte, ciência e tecnologia, as ideias de Ingold oferecem um campo fértil. A criação artística pode ser vista como participação nesses emaranhados – um modo de “trazer as coisas de volta à vida” por meio de processos sensíveis e colaborativos com o ambiente. A tecnologia, quando afinada com essa visão, torna-se extensão dos sentidos humanos, capaz de captar e interagir com fluxos, e não apenas controlá-los.
Talvez a ética do futuro – ou do agora – passe por ouvir essa linguagem silenciosa, reconstruindo vínculos e reinventando modos de convivência que respeitem a complexidade e a criatividade da vida.
Sentar-se, então, pode ser um ato radical de reconexão. Da próxima vez que se sentar, preste atenção: sinta a solidez da madeira, a história contida em suas fibras. Você não está apenas descansando o corpo – está em correspondência com a floresta.
E esse talvez seja o diálogo mais íntimo e silencioso de todos.
Fontes
INGOLD, Tim. Trazendo as coisas de volta à vida: emaranhados criativos num mundo de materiais. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 18, n. 37, p. 25-44, jan./jun. 2012.
Crédito: Imagem criada com IA generativa, 2025.
Rejane Nóbrega

Rejane Nóbrega atua na idealização e coordenação de projetos para apropriação social do conhecimento científico, a partir das interseções entre arte, ciência e tecnologia. Bióloga e mestre em Genética Marinha pela UFRJ, é movida pela convicção de que o conhecimento desperta empatia, alegria e uma apreensão mais profunda do mundo. É curadora da Humanos e assina esta coluna, onde explora a vida biológica como ponto de partida para as humanidades e suas vastas conexões.


