Letícia Novaes – ou Letrux, como ela assina seus discos – não quis animais de estimação na infância. Mas não que desgostasse dos bichos. “Eu era fascinada”, diz, antes de explicar porque evitava a proximidade. “Talvez por isso eu não quisesse ter. Clarice Lispector escreveu [em ‘A paixão segundo G.H.’] algo como: ‘Não os tendo, eu não os torturava’. Ela estava falando de homens, mas eu penso isso um pouco sobre bicho. Ainda bem que eu não tive bicho na infância porque eu tinha um fascínio tão alucinado que talvez tivesse sido perigoso”.

Esse fascínio se expôs de maneira escancarada em “Letrux como Mulher Girafa”, álbum lançado em 2023 que traz em todas as faixas alusões a animais de diferentes classes: “Louva deusa”, “Zebra”, “Crocodilo”, “Leões”, “Abelhas”… De alguma maneira, o disco é um desdobramento natural das reflexões e imagens que os bichos geram nela desde muito cedo.
“Quando era criança eu não gostava muito de ver televisão, novela, essas coisas”, lembra a cantora. “Mas se de repente passava num Discovery Channel e vinha um locutor falando que na língua da baleia azul cabia 50 pessoas, eu ficava: ‘Uau, imagina essa festa’. Aí minha cabeça ia longe”. Em homenagem a essa memória, em sua primeira banda, Letícios, ela gravou uma música sua batizada exatamente de “Discovery Channel”.
A comunicação sem fala dos animais sempre foi um ponto de atração poderosíssimo para a mente de Letícia. “A gente acha que a girafa é muda, mas ela não é. Ela faz um som que o ouvido humano não percebe. Eu ficava: ‘Nossa, que coisa maluca, como é que eles se compreendem?’ Me fascinava a compreensão pra além de palavras. Minha avó teve uma doberman que, antes de morrer, foi até a cama dela, beijou seu rosto, depois foi pra sua caminha e morreu. Ela nunca ia na minha avó de madrugada, foi lá se despedir. Não deu tchau, mas deu”.
Durante a pandemia, Letícia – que sempre se achou “meio animalzinha, do cheiro, do gosto” – conta que se viu próxima como nunca de seu lado bicho. “Tinha dia que me dava conta de que não tinha falado uma palavra. Às vezes, fazia comida e comia arroz e feijão com a mão, sabe? Teve um momento em que falei: ‘Tô um animal, eu não falo, não me comporto como um ser humano’”.

Nesse mesmo período da pandemia, Letícia começou a se permitir uma proximidade maior com animais domésticos. Algo que aconteceu naturalmente quando se mudou temporariamente para a casa de sua avó em São Pedro da Aldeia. “Quando você mora em apartamento, uma barata aparece e você fica horrorizado. Mas em casa entra morcego, gambá…”, compara a cantora. “Um dia apareceu um gato. Acho que era do vizinho, mas como a gente tinha os quintais próximos, ele vinha muito. Eu, que sempre achei que gato era uma pantera em miniatura que poderia me matar a qualquer momento, de repente me vejo com um gato no meu colo. Isso nunca tinha acontecido. Eu fui ter um gato subindo no meu colo aos 38 anos. Aí corta para beijo na boca do gato, gato dormindo do meu lado…”.
Essa nova relação com os animais, ela nota, passou a se refletir em seus escritos. “Comecei a perceber que meus cadernos, os audiozinhos de celular que eu vou gravando com melodia, tinham coisas como ‘desse mato não sai cachorro’, ‘matar um leão por dia’… Me liguei numas expressões que a gente usa envolvendo o mundo animal, mas para falar de algo humano”. Era o estopim das canções de “Letrux como Mulher Girafa”.

“Não tenho problema de mostrar os processos, os bastidores. Não me fere.”
A identificação da cantora com a girafa vem de longe. Ela sempre foi a mais alta entre seus colegas, o que gerava um bullying muitas vezes associado ao animal. “Pois é, me xingavam de girafa. Em algum momento eu falei: ‘Que idiotas’. Porque é um bicho bonito para caramba. Foi uma sensação de superação, de uma forma muito clara. Eu faço análise há 200 anos. Mas ali foi só me distanciar um pouquinho e ver: ‘que burrinhos, tadinhos’. Eles não observaram a girafa muito bem. Eles foram só no óbvio. Não viram que as girafas têm manchas lindas, com padrões diferentes em cada região do continente africano”.
Mais do que a altura e as “manchas” únicas, Letícia vê nela mesma e na girafa um traço comum fundamental. “É um bicho que vê tudo. E eu sou totalmente voyeur, muito observadora. Para além do tamanho, mas por causa do tamanho, ela vê quem tá chegando, vê tudo. Pensei: ‘Esse disco sou eu vendo tudo. Tudo que a gente viveu aí nesses últimos aninhos’”, conta a artista, que atualmente roda o Brasil com um novo show, “Letrux 20 anos alternativa”, no qual celebra o repertório de sua geração, com canções de Céu, Binário (banda de Lucas Vasconcellos, sua dupla no Letuce), Tulipa Ruiz, Cidadão Instigado, Ava Rocha e Curumin, entre outros.
“Letrux como Mulher Girafa” mergulha no reino animal para abordar questões dessa nossa sociedade de gente que “não pensa que é bicho”, como diz num dos versos. O olhar de Letícia, voyeur como uma câmera do Discovery Channel, captura cenas das relações humanas traduzidas em imagens animalescas: “Pele boa de cheirar/ Pelo bom de sentir/ Carne boa de comer/ Te cacei pra mim, te tirei o couro/ Tripas pra fora, tratei com amor/ Embora não pareça, foi com amor que te destrinchei”; “Deu zebra no jogo/ Perdi teu bico, tua asa, teu ninho”; “Deus não deu/ Exu vai dar/ Quem foi que disse que cobra precisa de asa?”; “Leva essa tristeza de abelha/ Deixa o mel e a cera”.
O álbum é pontuado por vinhetas entre as canções. São bastidores da gravação, fragmentos de ideias, pedaços de músicas inacabadas, haicais pop. Num deles, Letícia desenha um autorretrato sintético, com um tempero de duplo sentido: “Às vezes eu sou um ovo/ Às vezes eu sou uma galinha/ Eu sou tudo que dá”.
“Tenho um ovo tatuado, eu tenho um encanto com galinha e com ovo. Eu já pensei muito que eu não queria engravidar, eu queria só chocar uma criança. Você trabalha, chega em casa, aí você senta assim num lugarzinho e de repente sai um neném. Olha que magia! E no Brasil a gente usa galinha pra uma mina galinha, que pega todo mundo e tal. E tem uma coisa do ovo de ser um embriãozinho que ainda não saiu. A galinha sai. Pra galinha ser galinha ela tem que sair. E eu sou muito assim, mas às vezes eu sou muito ovo, quero ficar aqui dentro da minha casquinha. Eu até faço análise para buscar um meio termo, porque no fundo, no fundo, ou eu sou um ovinho ou eu sou ‘vamos lá, vamos bater asa e vamos ciscar por aí’”.

Os “intervalos”, com seu jeito de rascunho, são uma maneira de brincar com essa ideia da perfeição que o ser humano busca na arte, esquecendo seu caráter lúdico. Ou seja, outra dimensão do animal – ou do infantil, já que crianças estão mais próximas dos bichos do que os adultos – presente no disco. “Tem que ter brincadeiras na vida, ter situações de gracinhas para as pessoas verem também que um disco não é só aquilo, esse peso da obra bem-acabada”, reflete Letícia. “Ele foi feito de muitos momentos. Então quis mostrar para os fãs: ‘Olha que loucura é fazer um disco’. Então você está aqui com violão e você ri e você grita e você tem uma ideia e às vezes essa ideia não se desenvolve, não entra. Mas ela existiu e eu quis mostrar. Acho bonito também não mostrar só o resultado final depois da minha lapidação e da minha escavação. Não tenho problema de mostrar os processos, os bastidores. Não me fere”.
Foi com a mesma perspectiva em mente que Letícia escreveu Brincadeiras à parte, livro de contos que ela lança ainda em 2025. Cada conto remete a um jogo, que pode ser Mega-Sena, buraco… “Não que o jogo seja a coisa principal, pode ser apenas um esbarrão numa outra história que está se desenrolando”, explica ela, que pôs intervalos também no livro. “É como a gente faz quando está jogando, você fala: ‘Vamos parar rapidinho aqui para fumar um cigarro, vamos parar rapidinho para mexer no celular, vamos parar para comer’. Eu sempre fui essa amiga que as pessoas dizem que nunca tiveram tédio em mesa de restaurantes porque eu inventava jogos: ‘Vamos fazer telefone sem fio, mas por telepatia, olha no olho da pessoa e pensa numa cor’. Botei isso nos contos. Tô bem feliz com o resultado”, diz, com sinceridade desarmada de gente que se sabe bicho.

“Os Intervalos, com seu jeito de rascunho, são uma maneira de brincar com essa ideia da perfeição que o ser humano busca na arte, esquecendo seu caráter lúdico.”

Leonardo Lichote
Jornalista e crítico de música. Trabalhou
n’O Globo e hoje colabora com publicações
como Folha de S. Paulo, Piauí e Traços.

