Torcia o pescoço a criatura estelar, incapaz de sustentar nada além da elasticidade de sua pele âmbar. O trote, emplumado, ressoava pelo escorregadio das calçadas de cristais, buscando bisbilhotar à frente, em direção a uma figura de beleza tão próxima quanto as marés. Nos breves instantes em que fixava o seu sentir pelo outro, que se espelhava em suas estrelas, a criatura tilintava de profundo prazer. A languidez havia desaparecido, dando lugar à coragem de um corpo sadio. Nutria-se de beleza, assim como a folha se nutre de energia solar. Outrora, nos tempos de ouro, seu alimento era o amor. Entretanto, o amor estava extinto, e seu corpo sucumbira à busca de outros modos de estar viva. Não havia olhos que enxergassem, mas sim a própria energia que se manifestava. Naquela ocasião, a figura bela havia alimentado dias escassos. Sentia-se forte novamente, o que a fazia retornar ao seu íntimo, onde guardava em si a esperança de encontrar o amor. Trotava para frente, num caminho infinito. Não tinha medo, mesmo em dias eclipsados, mesmo diante dos tornados. Sempre em frente trotava a criatura. Pelo caminho eram vastos os sentimentos. Alguns a atormentavam a tal ponto que, por vezes, deixava passar bem próxima de si mesma aquilo que a alimentava. Jamais havia se dado conta das perdas, já que trotar para trás nunca tinha sido considerado durante a sua longa existência.
De repente, um chiado estremeceu seu pescoço. Reconheceu, como se fosse um sonho, algo que era familiar. Algo que vinha em manada de muito longe. Eram os corpos celestes em rajada à sua frente. Eram um dos poucos seres que costumavam vir em direção contrária à sua, fazendo um tumulto que mastigava a ordem de sua caminhada. Desta vez, diferente de todas as outras, os corpos celestes carregavam consigo algo do futuro. Isto que vinha, despencou do lado da criatura, que sentiu pela primeira vez o pavor. E, tomada por esse sentimento inédito, saltou do seu corpo um novo órgão: um olho. Se revelou diante de si tamanha cor, volume e esplendor. Parou de trotar para contemplar aquilo que estava ao seu redor. Parada, pôde ouvir o som de um caminho ausente de suas passadas. Então, o olho que não habitava nenhuma cabeça, mas sim a extremidade do seu dorso, lacrimejou. Tudo ao redor era exuberante e vibrava com força diante do seu olho fazendo com que a criatura alargasse ainda mais a pálpebra num desejo de captura. Quanto mais alargava a pálpebra, mais sua frustração crescia. Aquilo que contagiava seu olho não alimentava seu corpo. Prostrou-se diante do ser futurístico que, caído ao seu lado, estava morto. E assim, deitou à beira da morte e descobriu, finalmente, o descanso.

QUEM É VALESKA TORRES?
Poeta, escritora, performer, educadora e editora. É autora dos livros O coice da égua (7Letras, 2019), Plutônio-239 (7Letras, 2022) e Navalhar o chão com dentadas (2024). Entre as 100 pessoas inscritas de mais de 30 cidades ao redor do mundo, foi uma das duas escritoras selecionadas para a residência literária Writer in the Park 2024, em Liubliana, na Eslovênia. Realizou sua apresentação literária Navalhar o chão com dentadas em Liubliana, Berlim, Madri e Lisboa. Participou como poeta convidada do Mundial Poético de Montevidéu, no Uruguai, e do Festival Internacional de Poesia de Rosário, na Argentina. Ministrou diversas oficinas literárias no Sesc RJ e no circuito de Criação Literária do Arte da Palavra 2024 – Sesc Brasil. Compõe a antologia As 29 poetas hoje (Companhia das Letras, 2021), organizada por Heloísa Buarque de Hollanda.

