Q
uanto tempo leva para uma mulher habitar o próprio corpo? Para muitas de nós, a resposta segue sendo a mesma: uma vida inteira. Trata-se de uma jornada íntima, atravessada por gerações – um processo lento de reconhecimento que, só com o tempo, nos permite habitar a própria pele como quem finalmente chega em casa.
Desde cedo, nossos corpos são territórios em disputa. Como escreve a jornalista Milly Lacombe, “viver em corpo de mulher é ser lembrada a todo o instante de que esse corpo não é exatamente seu”. Antes de aprendermos a nos perceber, aprendemos a ser vistas. O corpo passa a existir como algo a ser conquistado, otimizado para o olhar do outro – nunca um lugar para simplesmente ser.
É aqui que um paradoxo se revela. A bióloga que me habita sabe: todo corpo é, por definição, vivo, poroso, relacional. Não somos unidades isoladas, mas ecossistemas em movimento – holobiontes atravessados por trilhões de organismos que tornam a vida possível. Essa é uma verdade biológica comum a todos os corpos. Ainda assim, a lógica patriarcal ignora essa complexidade e insiste numa hierarquia: o corpo masculino como medida, centro e ação; o corpo feminino como o outro – superfície de observação, julgamento e controle. A biologia afirma que somos vida em relação; a cultura insiste em nos reduzir a objeto.
Para muitas mulheres da minha geração, a jornada para habitar o próprio corpo só se completa com a maturidade. Depois de décadas tentando nos encaixar em moldes que não nos servem, a vida nos convida (ou nos força) a fazer as pazes com nosso primeiro território. Descobrimos que a felicidade não está em ter o corpo “certo” para o olhar do outro, mas em habitar plenamente o corpo que temos. Descobrimos que nosso corpo não é um problema a ser resolvido, mas uma casa a ser amada.
Essa jornada que atravessa a vida para habitar o próprio corpo não é um sinal de fracasso. É resistência em estado puro. É a prova de que, mesmo em um mundo que insiste em nos separar de nós mesmas, a vida encontra brechas para retornar. Como na biologia e na vida que vivo, depois de tanta contenção, o corpo lembra – por si só – como voltar a pulsar, a ser.
Referências
LACOMBE, Milly. Viver em corpo de mulher. Revista TPM, 29 jun. 2022. Disponível em: https://revistatrip.uol.com.br/tpm/milly-lacombe-viver-em-corpo-de-mulher/. Acesso em: 12 jan. 2026.
Rejane Nóbrega

Rejane Nóbrega atua na idealização e coordenação de projetos para apropriação social do conhecimento científico, a partir das interseções entre arte, ciência e tecnologia. Bióloga e mestre em Genética Marinha pela UFRJ, é movida pela convicção de que o conhecimento desperta empatia, alegria e uma apreensão mais profunda do mundo. É curadora da Humanos e assina esta coluna, onde explora a vida biológica como ponto de partida para as humanidades e suas vastas conexões.

