Era mais um dia comum na região do Alto da Rasa, em Armação dos Búzios, mas a ameaça pairava sobre cada passo. Enquanto a família mais velha se dirigia à lavoura, muitas crianças eram cuidadas pela comadre Eva para que os pais fossem trabalhar na roça.
A despensa estava vazia. Na semana anterior, as lavouras haviam sido impiedosamente invadidas e destruídas pelos bois do novo administrador, o Marquês. De mantimentos, restavam apenas um punhado de farinha guardada no cesto de fibra de bananeira, algumas hortaliças e um cacho de bananas. O Marquês também havia proibido a pesca no mar, no rio e nas lagoas, colocando seus capangas para vigiar, dia e noite, e impedir a passagem das famílias dos descendentes dos ex-escravizados da Fazenda Campos Novos naqueles locais.
A hora do almoço se aproximava, e o estômago de Eva revirava de preocupação. As crianças, já famintas, começaram a perguntar pelo almoço.
Eva olhou para o céu de um azul intenso, engoliu em seco e começou a rezar baixinho. E foi nesse instante que o céu começou a mudar. O azul deu lugar ao cinza, e um ruído estranho se fez ouvir. Ao longe, Eva avistou um bando escuro se aproximando, rápido e denso. Ela franziu a testa, achando que eram pássaros, mas logo percebeu que a forma dos corpos era diferente, e o cheiro de maresia pairava no ar.
Não eram pássaros: eram peixes! Muitos peixes, prateados e brilhantes, caíam do céu como gotas de chuva em meio ao sol. As crianças correram, apavoradas, achando que se tratava de algum feitiço ou maldição.
Eva acalmou as crianças. Juntos, todos começaram a catar os peixes que se debatiam no chão de terra batida. A alegria substituiu o pânico. Prepararam os peixes, que foram assados na brasa, exalando um perfume delicioso. Cozinharam purê de banana e um delicioso suco de acerola.
O cheiro da peixada estava tão bom que chamou a atenção de um capataz da fazenda, Zé Florzinha, que passava por perto. Ele apressou-se até o local onde ficava a passagem proibida para a praia e questionou os vigias se eles haviam deixado alguém pescar.
Os capatazes negaram e começaram a afirmar que se tratava de feitiçaria, pois viram quando os peixes caíram do céu. Os comentários sobre a chuva de peixes chegaram até onde os mais velhos trabalhavam. Todos riram, aliviados, e agradeceram aos orixás e à força de sua fé por terem protegido seus filhos da fome. Naquele momento, tiveram a certeza inabalável de que deveriam ficar e lutar, pois a própria terra e o céu conspiravam a seu favor. Enquanto a luz do dia esmaecia, o barulho ritmado das enxadas inspirou Aspino a criar uma nova parte para o ponto de jongo que cantavam:
A luta é grande, meu irmão, mas com fé nós vai vencer. Se nós chora, o céu responde, com muito peixe pra comer. A enxada corta a tristeza, e a terra nos dá o poder. O Marquês vai se cansar, porque daqui nós não vai rodar.

Quem é Gessiane Nazario?
Pós-doutora em História Comparada (UFRJ). Doutora em Educação (UFRJ). Mestrado e graduação em Sociologia (UFF). Professora efetiva na Rede Municipal em Armação dos Búzios. Membra da Coordenação do Coletivo de Educação da Conaq. Autora do livro Revolta do Cachimbo: a luta pela terra no quilombo da Caveira e do livro infantil Aspino e o boi.

