A
o refletir sobre o tema desta edição, “interações oceânicas”, minha mente navegou até um capítulo especial da minha trajetória científica: minha dissertação defendida há mais de 20 anos, sobre a ascídia Phallusia nigra e suas incríveis interações com as águas de lastro dos navios. Revisitar esse trabalho não é apenas um exercício de memória, mas um reencontro com o encantamento que a ciência proporciona.
Na época, integrando o Laboratório de Biodiversidade Molecular do Departamento de Genética do Instituto de Biologia da UFRJ, investigamos o status genético dessa ascídia solitária, reconhecível por sua túnica azul-níger. A espécie era considerada cosmopolita, ou seja, possui uma ampla distribuição geográfica. No entanto, a ciência molecular nos ensinou que o cosmopolitismo aparente, frequentemente atribuído pela taxonomia tradicional, pode mascarar uma diversidade oculta – grupos morfologicamente semelhantes, mas geneticamente distintos.
No caso de Phallusia nigra, nossa análise de variação genética e estrutura populacional no Atlântico Ocidental, de Miami (EUA) a São Paulo (Sudeste do Brasil), revelou uma surpreendente homogeneidade. Isso indicava que, ao contrário de múltiplas espécies, estávamos diante de uma única espécie com uma capacidade de dispersão larval excepcional – ou talvez um fenômeno recente de expansão populacional facilitado pela atividade humana, especificamente o transporte nas águas de lastro de navios. Ou seja, a ascídia que eu estudava não só interagia com o ambiente oceânico natural, mas também com o modo como o ser humano conecta diferentes mares, ampliando fronteiras biológicas e criando novas interações oceânicas.
Esta lembrança me traz alegria porque simboliza o poder da ciência como um processo de descoberta e encantamento. Conhecer, por si só, é um ato de fascínio: a beleza da complexidade, a surpresa da interconexão entre seres e ecossistemas. A ciência pode até não ter uma utilidade prática imediata – e é justamente essa ausência inicial de um objetivo utilitário que reforça sua dimensão essencialmente humana e poética. A ciência é uma forma de ampliar horizontes, de nos maravilharmos com o mundo e, consequentemente, de nos reconhecermos como parte dele.
Minha dissertação sobre águas de lastro, ascídias e genética é mais que um trabalho do passado para mim. É uma metáfora do caminho que trilho, no qual ciências e humanidades se encontram e se expandem em redes tão profundas e misteriosas quanto os oceanos.
Que sigamos juntos navegando nesse mar de descobertas e encantamentos, valorizando cada gota de conhecimento que nos aproxima do planeta azul – e de nós mesmos.
Fontes
NÓBREGA, Rejane; SOLÉ-CAVA, Antonio M.; RUSSO, Claudia A.M. High genetic homogeneity of an intertidal marine invertebrate along 8000 km of the Atlantic coast of the Americas. Journal of Experimental Marine Biology and Ecology, v. 303, n. 2, p. 173-181, 8 jun. 2004. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.jembe.2003.11.009. Acesso em: 16 set. 2025.
COZZI, Sixto. https://redpromar.org/sightings/83224. Acesso em 17 set. 2025.
Rejane Nóbrega

Rejane Nóbrega atua na idealização e coordenação de projetos para apropriação social do conhecimento científico, a partir das interseções entre arte, ciência e tecnologia. Bióloga e mestre em Genética Marinha pela UFRJ, é movida pela convicção de que o conhecimento desperta empatia, alegria e uma apreensão mais profunda do mundo. É curadora da Humanos e assina esta coluna, onde explora a vida biológica como ponto de partida para as humanidades e suas vastas conexões.


