O Rio é a memória do mar
Margem do rio
Um jirau, espécie de mesa artesanal com as forquilhas fincadas no chão, um montante de roupas sujas em cima, sabão em barra, um sol no céu queimando as costas de uma lavadeira de roupa às margens do Rio Amazonas. Essa cena é comum para mim durante toda a travessia que faço para chegar ao Quilombo da Passagem, onde minha avó e meus tios ainda moram, localizado no estado do Pará, distante duas horas do município de Santarém. São nessas margens que diversas comunidades constroem todos os dias suas culturas, seus afazeres, suas devoções, suas paixões, seus desejos e suas histórias marcadas no espaço-tempo do mundo. Nas beiras de água que se encontram modos de vida que suspendem o céu, mesmo sem saberem de tais noções, hoje difundidas cada vez mais no modo de vida ocidental.
São, também, nessas margens e nessas populações que me inspirei e me inspiro para fazer arte, são esses locais que o Margem do Rio nasceu, no intervalo da partida e da chegada, eis que encontrei uma espécie de vácuo, que longe do significado de ausência, mas perto do significado de vidas-potências, a disposição em fazer leituras das margens e dos seus cursos de água. Todas essas viagens me levam a entender como a água dita a vida e água, mais do que um bem comum, é um depósito de memórias, é uma contadora de histórias, é o vai e vem das mudanças causadas pelo ser humano, é o reflexo do nosso corpo-natureza, é o princípio da vida e também o princípio de seu fim. É o que permite o ciclo da água, é o que podemos enxergar como um significado novo de utilidade. Longe de agenciar o que as águas falam e desejam, meu trabalho é colocar em diálogo e expor a posição marginal em que as águas e nós, seus povos, estão situados. A arte em seu papel político, social, econômico e abstrato, pedindo colaboração às águas.
Se uma história começa com a apresentação dos personagens e contextos de vida, é na história da vida humana que nossos parentes Rios começam a se apresentar e a quem devemos saudar. A hidrografia do Brasil será o mapa dos nossos sonhos colocados dentro d’água, seja no pulo em igarapés, seja no mergulho no mar, seja no chuá das cachoeiras.
Portanto, temos pouco tempo para ouvir as memórias das águas. Entender o que é mar e o que é rio, suas confluências e o que os povos das águas dizem para termos mais tempo para pisar nesse chão. E de quais maneiras iremos juntos parar de devorar o planeta, de colapsar sistemas hídricos e de usar a criação potente que a arte nos dá com suas ferramentas, a partir dos territórios.
Depois de deixarem as nascentes, essas águas serão tocadas por tantos corpos e pensamentos, que serão preenchidas com muito mais vida, e ao chegarem ao oceano, será incontável a quantidade de histórias para o mar. O rio será a memória do mar, e o mar o repouso da memória inquieta, enquanto não fizerem seu caminho de retorno. Está tudo na margem.

O AUTOR

Margem do Rio
Amazonense, farmacêutico, artista visual e ativista nas causas socioambientais. Atualmente, é pós-graduando em Antropologia Social na Universidade Federal do Amazonas, estudando Encantarias no Baixo Amazonas. Idealizador do Margem do Rio, projeto visual de interlocução das memórias dos povos amazônicos em determinadas regiões, trazendo as narrativas marginais como potências para o mundo.
Década dos Oceanos

Marcio Harum
A relação da arte com o meio aquático é intrínseca. A representação de mares, lagos e rios remonta imemorialmente desde os primórdios da expressão da humanidade. Nestes tempos de novas guerras, como na Ucrânia e Palestina, vemos a partir da iniciativa da Organização das Nações Unidas (ONU) para Educação, Ciência e Cultura (Unesco), ser decretada no período entre 2021 e 2030, a Década dos Oceanos. Desta maneira, em escala global, a oceanografia entra em evidência no campo artístico da atualidade. As ciências oceânicas e os realizadores para o desenvolvimento sustentável destacam a importância de novos aplicativos tecnológicos para serviços, mecanismos e filtros que enderecem tentativas de esclarecimento dos macroproblemas dos oceanos ao grande público, seja em atividades públicas presenciais ou on-line. É por esta razão que temos presenciado manifestações culturais ao redor do mundo em favor dos mares e oceanos. Um sentido universalmente crítico vem orientando a criação de obras temáticas em arte, ciência, educação e tecnologia voltadas à sobrevivência das costas, junto de suas populações e culturas litorâneas. Artistas e cientistas buscam transformar o tema em um libelo acerca dos urgentes e difíceis desafios enfrentados pela vida nas águas dos mares e oceanos.
Um acontecimento emblemático recente e circunscrito à realidade de conscientização planetária na década dos oceanos foi a anunciação na COP 26, em Glasgow 2021, do desaparecimento de Tuvalu, um país insular de constituição independente, situado na Polinésia, Oceano Pacífico. Um arquipélago vulcânico formado por três ilhas de corais e seis atóis, com uma área de 26 km2, população de aproximadamente 12.000 habitantes, e que está sucumbindo gradualmente devido a elevação do nível do mar ocasionada por efeitos severos da crise climática. Encarando sua extinção, em 2022, tornou-se a primeira nação digital existente no metaverso.
Em consideração às drásticas alterações ambientais causadas pelas mudanças climáticas, com apresentação de trabalhos de 27 artistas, foi exibida publicamente entre 2023-24 a 1ª Mostra Nacional de Criptoarte no CCBB Rio de Janeiro e São Paulo, com foco nas prioridades da vida marinha e suas observações oceanográficas. Como uma parcela da geração pós-internet é afeita ao ativismo que a emergência climática diretamente a convoca, ao plasmar uma realidade de códigos programáveis criativamente, a exposição uniu esforços para representar esteticamente distintas tentativas de reversão do ciclo de declínio na saúde dos mares e oceanos. Ao se propor a divulgação de imagens de alerta sobre a redução da poluição e a conservação da biodiversidade e ecossistemas marinhos, marcaram presença na mostra, às vezes no modo phygital, um conjunto de aspectos poéticos e de denúncia em relação a preservação das marés, temperatura, correntes e paisagens marítimas, das mutações artificiais e ilhas de lixo geradas por microplásticos, dos recifes de corais que vêm sendo dizimados, do cabeamento submarino excessivo, dos terríveis processos destruidores de mineração e extrativismo que atentam constantemente contra a vida, a fauna e a flora marítimas (deep-sea mining), prevenção aos desastres naturais como tsunamis, acidentes ecológicos como vazamentos de cargas tóxicas, produtos químicos e petróleo, e igualmente a respeito do acolhimento de refugiados climáticos humanos e não humanos. A arte de hoje do capitaloceno tem que chegar junto para a sensibilização e conscientização acerca do planeta aqui e agora.
O AUTOR

Marcio Harum
Marcio Harum desenvolve trabalhos na interseção entre curadoria, programas públicos, tecnologia e educação. Coordenou o Programa CCBB – Arte e Educação (2018–2020) e foi curador de artes visuais do CCSP (2012–2016). Realizou a mostra Década dos Oceanos (CCBB Rio e SP, 2023–24) e apresentou Uma Rede na Bienal SACO 1.1 (Chile, 2023). Curou a 2ª Bienal do Barro (Caruaru, 2019) e exposições como Via Aérea (Sesc Belenzinho, 2018), Transmigração (Caixa Cultural SP, 2016) e A Cidade, as Ruínas e Depois (Torre Malakoff, 2016). Também curou mostras no Peru e em Porto Alegre (2015) e foi consultor da plataforma Tropix (2021–22). Participa de comissões de importantes editais nacionais, como o 51º Salão de Santo André (2023–24) e o Panorama de Goiá

