QUE APRENDIZADOS COLETIVOS EMERGEM DAS INTERAÇÕES ENTRE OS ANIMAIS COM OS QUAIS COABITAMOS O MUNDO?

Já tem um tempo que eu venho tentando falar com formigas. Pode parecer insano dizer isso, mas é a forma como tenho me posicionado para prestar atenção a um mundo no qual eu sou apenas mais uma habitante. Minhas tentativas se iniciaram na pandemia, quando me vi morando em um apartamento no centro de São Paulo e estava diante de um cenário no qual eu precisava inventar alguma coisa para não sucumbir. As formigas moravam comigo no meu apartamento e são daquela espécie que estamos acostumadas a ver nas nossas casas. Umas bem pequenas, chamadas formigas fantasmas. O nome delas é decorrente da coloração do abdômen –, que é quase transparente. Comecei a observar e ter ciência da entrada do ninho – no rejunte do azulejo da cozinha. Era eu entrar na cozinha e daqui a pouco elas saíam – como se a minha presença fosse um “desconvite” a delas. Salvo se em cima da mesa tivesse algo que elas estivessem muito interessadas, como aconteceu com o bolo de banana. Eu comprei e deixei na mesa, mas quando voltei era tanta formiga que era impossível que eu comesse sequer uma fatia dele. Essa foi a primeira vez que vi as formigas e a partir desse encontro, comecei a filmar com uma lente macro barata acoplada ao meu celular. Também cheguei a ver algumas no rejunte do registro do banheiro, indo dessa frestinha para uma localizada mais na parte de cima. Várias passavam, carregando outras bem transparentes na boca. Era uma transferência de ninho. Comecei a deixar pequenas gotas de mel em uma placa de acrílico em cima da mesa para que elas viessem – aquilo parecia ser um grande banquete para elas e nem a minha presença as deixavam desconfortáveis. Eram muitas formigas e comecei a me questionar a razão delas serem categorizadas como pragas urbanas: por que um animal que está ali exercendo sua biologia, poderia ser uma praga? E de tanto me dedicar a elas, me dei conta do sistema de comunicação que elas criaram ao longo de toda a sua longa história evolutiva: elas tocam as antenas umas das outras. Eu tinha aprendido isso de forma tão mecânica que nunca tinha parado para pensar que a existência de todas as espécies de formigas dependem da delicadeza do gesto de tocar as antenas umas das outras. Esse exercício de olhar, de prestar atenção como uma arte da atentividade, pode nos ajudar a reativar nossos sentidos nesse mundo tão capturado por uma lógica hegemônica. Talvez isso nos ajude a resgatar nossas capacidades de imaginarmos novos e possíveis mundos por vir: se a gente pudesse falar feito formiga, como seriam nossos gestos? Pensamos nessa pergunta como uma ferramenta que nos faz criar outros modos de agir, sentir e pensar. Talvez isso nos torne mais gentis em um mundo em que, cada vez mais, as espécies estão desaparecendo; talvez isso nos torne capazes de falar com formigas.

A AUTORA
Fabíola Fonseca
Bióloga pela Universidade Federal de Goiás (UFG) com mestrado e doutorado em educação (UFG, Universidade Federal de Uberlândia/Harvard), pós-doutorado em artes pela Universidade Federal do Ceará e outro pós-doutorado em educação para sustentabilidade pela Unicamp. Atualmente está no Museu do Amanhã como especialista em desenvolvimento científico. Gosta de ver as gotas de chuva escorregando pela janela, os desenhos que o brilho da lua cheia faz no mar e acredita que todos os seres carregam em si algo mágico que jamais poderá ser desvendado.

