DIÁLOGOS ENTRE AS CIÊNCIAS HUMANAS E NATURAIS: MUNDOS POSSÍVEIS A PARTIR DAS RELAÇÕES MULTIESPÉCIES
MARIANA INGLEZ

“… Hoje almocei no acampamento de uma empresa de resgate da fauna impactada pelas obras. Comi rápido para ter tempo de ir à área dos animais e, assim que cheguei, um macaco-prego se aproximou. Ele percorria a cerca para me acompanhar e ficar o mais próximo possível de mim. Estendia a mãozinha como se implorasse por um toque e eu não pude negar o pedido silencioso. Como um bebê, segurava meus dedos em sua palma fechada, ‘curiando’ por dentro da manga da minha camiseta e tentando alcançar meu óculos antes de acalmar e me encarar, mirando nos meus olhos. Não tenho encontrado humanos que me dizem tanto com o olhar e sem palavra alguma. A vontade de brincar imediatamente foi substituída por uma melancolia que me atravessou. Mesmo em silêncio, ouvi ecos desesperados por toque, companhia, acolhimento. Lembrei dos bandos de macacos que, livres, pulam na floresta ainda em pé. Esse filhote, teve sua natureza negada pra sempre e agora sobrevive sem viver…”
(07/03/2014 – Diário pessoal, M. Inglez)
Chamei a Amazônia de casa pela primeira vez quando me mudei de São Paulo (SP) para Altamira (PA), entre os anos de 2013 e 2014. Compreendendo a dimensão dessa vivência e de tantas outras no decorrer dos anos, as tenho registrado em diários pessoais.
Encontros como acima tem me feito entender o quanto perdemos com o antropocentrismo e a cisão entre os mundos da nossa espécie e das demais. Como Bioantropóloga em busca pelo diálogo entre as Ciências Humanas e Naturais para a compreensão da nossa própria espécie, me interessa refletir sobre aprendizados possíveis a partir das interações com animais não humanos (ou mais-que-humanos) e da observação de suas próprias formas de se relacionarem entre si, com outras espécies e com o mundo físico.
E se partíssemos da ideia de que outros seres pensam e de que as identidades vão além da humanidade? Esse tem sido um dos principais questionamentos que orientam uma Antropologia para além do ser humano. Na contramão das fraturas da colonialidade que hierarquizam as variadas formas de vida, como bem define Malcom Ferdinand, quão interessante são os efeitos de uma percepção que busque atender à realidade prospectiva dos seres em geral e que não tenha as diferenças, mas as semelhanças do pensamento como pressuposto?
A forma como fui ensinada (colonizada) a ler o mundo se expande quando ouço ou leio pensadores como Davi Kopenawa, Ailton Krenak ou Nego Bispo; as etnografias e trabalhos de autores como Donna Haraway, Manuela Carneiro da Cunha, Eduardo Viveiros de Castro, ou Eduardo Kohn; e nas vivências com pessoas de comunidades ribeirinhas de Caxiuanã, Mamirauá ou indígenas do Alto Rio Negro.
“Os olhos são o espelho da alma”. Nos olhos do macaco-prego (ou da minha cachorra Jambú), tenho pra mim que ambos sabíamos quem era quem em igualdade de “selfs”, dos “eus”, nas individualidades de nossas existências. Já sentiu isso também? Essa “alma”, presente em todas as formas de vida, seria o que nos conecta e permite as relações em uma Ecologia dos Seres. Excede a barreira do corpo, locação física impermanente, e poderia persistir após a morte e entre espécies, de acordo com formas menos ocidentais, capitalistas e hierárquicas de ver o mundo. Se animais são pessoas que se auto reconhecem, muitos mundos são possíveis a partir de quem observa e em qual situação. Como seriam esses outros mundos?
Para mais profundidade nas reflexões e abordagens que inspiraram esse texto:
HARAWAY, Donna. When Species Meet. Minneapolis: University of Minnesota Press, 2008.
KOHN, Eduardo. How forests think: toward an anthropology beyond the human. Berkeley: University of California Press, 2013.
KOPENAWA, Davi; ALBERT, Bruce. A queda do céu: palavras de um xamã yanomami. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.
HARAWAY, Donna. The Companion Species Manifesto: dogs, people and significant otherness. Chicago: Prickly Paradigm Press, 2003.
FERDINAND, Malcolm. Uma ecologia decolonial: pensar a partir do mundo caribenho. São Paulo: Ubu Editora, 2022.
BISPO, Antônio (Nego Bispo). A terra dá, a terra quer. São Paulo: Ubu Editora, 2023.

A AUTORA
Mariana Inglez
Doutora e Mestra em Ciências (IB-USP), com especialidade em Bioantropologia. Pesquisa sobre as relações entre ambiente, qualidade de vida humana, alimentação e políticas públicas, com foco em conservação e sociobiodiversidade a partir de uma abordagem biocultural. Desenvolveu pesquisa sobre transição nutricional e insegurança alimentar na Amazônia paraense, além de atuar como divulgadora científica multimídia, promovendo inclusão racial, de gênero e justiça ambiental. Atualmente, é pós-doutoranda em Engajamento Público em Ciência com foco em Ciência Cidadã (IB-Universidade de São Paulo | CTL-University of Groningen, NL), explorando abordagens decoloniais e participativas para conservação de patrimônios bioculturais no litoral sul de São Paulo.

