Revista Humanos
  • Home
  • Editorial
    • Sobre a Revista
    • Expediente
    • Edições para Download
    • Fale Conosco
  • Dossiê
  • Entrevistas
  • Bio ETC
  • Reportagem
  • Um DOIS
  • Em Rede
  • Futuros
  • Quadrinhando
  • Que CAPA
  • Conte-me um conto
  • De olho no Sesc
  • Home
  • Editorial
    • Sobre a Revista
    • Expediente
    • Edições para Download
    • Fale Conosco
  • Dossiê
  • Entrevistas
  • Bio ETC
  • Reportagem
  • Um DOIS
  • Em Rede
  • Futuros
  • Quadrinhando
  • Que CAPA
  • Conte-me um conto
  • De olho no Sesc
Revista Humanos
No Result
View All Result
Bio ETC

ANIMALIDADES DIGITAIS: QUANDO O CÓDIGO PERDE O CONTEXTO

por REJANE NÓBREGA
30 de dezembro de 2025
/ Número 9
ANIMALIDADES DIGITAIS: QUANDO O CÓDIGO PERDE O CONTEXTO
Share on FacebookShare on TwitterShare on WhatsappShare on E-mail

V

ocê acha que seu cachorro, uma abelha, uma baleia e você vivem no mesmo mundo? Para você, o parque é um cenário de árvores e pessoas; para o cachorro, é um universo de cheiros, um mapa de quem passou por ali. A abelha vê cores ultravioletas que você nem imagina. Essa teoria, desenvolvida pelo biólogo Jakob von Uexküll, tem um nome: Umwelt. Cada ser vivo não apenas habita um ambiente, mas cria um mundo próprio, moldado por seus órgãos sensoriais e pelos sinais que lhe são relevantes.

Para Uexküll, cada ser vivo opera com base em um código (o repertório de signos que pode interpretar) e um contexto (o ambiente que dá sentido a esses signos). O código não é um programa abstrato que roda no vazio; é inseparável do seu contexto ecológico. Dessa relação emergem formas impressionantes de inteligência coletiva, como as formigas, cuja genialidade não está em um indivíduo, mas na interação. O código de uma formiga – seguir o feromônio – está acoplado ao contexto físico. Se o caminho não leva à comida, o rastro enfraquece. O código é validado pelo mundo. A inteligência nasce dessa sintonia.
A teoria de Uexküll dialoga com cosmologias do Sul Global ao questionar a ideia de uma Natureza única e objetiva – pilar do pensamento moderno, como analisam Latour (1994) e Lander (2005). Em vez de uma natureza e múltiplas culturas, surge o multinaturalismo: múltiplos mundos, definidos pela perspectiva de cada ser. A onça, o carrapato e o humano não compartilham a mesma realidade.
Nós, humanos hiperconectados digitalmente, também formamos um enxame. Mas diferente das formigas, seguimos algoritmos desvinculados do contexto do mundo real, cujo objetivo não é a verdade ou o bem-estar, mas a otimização do engajamento. Curtidas, compartilhamentos e indignação tornam-se sinais sem lastro na realidade. O código cria seu próprio contexto – um Umwelt sintético que se autorreferencia e nos aprisiona. Conteúdos que provocam emoções intensas se espalham não por serem verdadeiros, mas por serem mais engajantes. Seguimos rastros que não levam à comida, mas ao vício da atenção.
Uexküll nos lembra que viver é traduzir. O problema das redes não é apenas o sinal, mas a desconexão entre código e contexto. A tarefa é reconectá-los: lutar por métricas ancoradas no mundo real, construir plataformas mais conscientes e cultivar a percepção de que nosso Umwelt digital é apenas um entre muitos – e talvez um dos mais empobrecidos. A sabedoria das formigas está na fidelidade ao contexto. Talvez seja hora de reaprendermos essa lição.

Fontes

LATOUR, Bruno. Jamais fomos modernos: ensaio de antropologia simétrica. Tradução de Carlos Irineu da Costa. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1994.
UEXKÜLL, Thure von. A teoria da Umwelt de Jakob von Uexküll. Galáxia: Revista do Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Semiótica, São Paulo, n. 7, p. 19-48, abr. 2004.
LANDER, Edgardo (Org.). A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais. Perspectivas latinoamericanas. Buenos Aires: CLACSO, 2005.

Rejane Nóbrega

Foto: Acervo pessoal

Rejane Nóbrega atua na idealização e coordenação de projetos para apropriação social do conhecimento científico, a partir das interseções entre arte, ciência e tecnologia. Bióloga e mestre em Genética Marinha pela UFRJ, é movida pela convicção de que o conhecimento desperta empatia, alegria e uma apreensão mais profunda do mundo. É curadora da Humanos e assina esta coluna, onde explora a vida biológica como ponto de partida para as humanidades e suas vastas conexões.

Tags: bioEtcJakob von UexküllReflexãoRejane NóbregaUmwelt
Próximo Post
LETRUX, UM BICHO QUE VÊ TUDO

LETRUX, UM BICHO QUE VÊ TUDO

Menu

  • Home
  • Editorial
    • Sobre a Revista
    • Expediente
    • Edições para Download
    • Fale Conosco
  • Dossiê
  • Entrevistas
  • Bio ETC
  • Reportagem
  • Um DOIS
  • Em Rede
  • Futuros
  • Quadrinhando
  • Que CAPA
  • Conte-me um conto
  • De olho no Sesc

Menu footer

Siga nossas redes

Instagram Facebook Youtube
No Result
View All Result
  • Home
  • Editorial
    • Sobre a Revista
    • Expediente
    • Edições para Download
    • Fale Conosco
  • Dossiê
  • Entrevistas
  • Bio ETC
  • Reportagem
  • Um DOIS
  • Em Rede
  • Futuros
  • Quadrinhando
  • Que CAPA
  • Conte-me um conto
  • De olho no Sesc