Sempre discutimos que a experimentação no ensino de química é essencial para uma aprendizagem significativa. Alinhada à visão de Chassot (2001), o ensino de ciências deve incentivar a construção ativa do conhecimento, integrando teoria, prática e o cotidiano dos estudantes. Nesse sentido, o laboratório se torna um ambiente de investigação, onde os estudantes exploram e refletem sobre os fenômenos observados. Ao conectar experimentos a temas relevantes como questões ambientais, tecnológicas e sociais, a proposta pedagógica estimula a reflexão crítica sobre o papel da ciência na sociedade. Essa abordagem se torna ainda mais potente em contextos como o de um pré-vestibular social, onde o ensino científico também atua como ferramenta de empoderamento.
Inspiradas nas reflexões de Chassot (2001) e nos aportes teóricos de Bárbara Carine (2021, 2023), que incentiva trazer para as práticas pedagógicas múltiplas vozes e trajetórias historicamente excluídas do campo científico e promover discussões antirracistas, partimos para as atividades laboratoriais integrando teoria, vivência e questões sociais. As ações foram realizadas no pré-vestibular social Futuro em Curso, do Sesc Nova Friburgo/RJ. O projeto oferece aulas preparatórias para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e outros vestibulares, com conteúdo nas áreas de Linguagens, Matemática, Ciências da Natureza e Ciências Humanas. Com uma proposta inovadora, o curso inclui também atividades práticas, rodas de conversa, aulas-passeio, debates, teatro, excursões pedagógicas, aulas integradas, simulados e aulões transdisciplinares. A iniciativa é viabilizada por meio do Programa de Comprometimento e Gratuidade (PCG) do Sesc RJ, que amplia o acesso da população à educação de qualidade.
A abordagem de práticas laboratoriais contextualizadas vai além dos experimentos: ela conecta o conhecimento científico à realidade dos estudantes, promovendo protagonismo, curiosidade e reflexão crítica, especialmente em contextos de desigualdades. A atividade desenvolvida foi inspirada na campanha de 21 Dias de Ativismo Contra o Racismo, articulada com o conteúdo de separação de misturas e com as reflexões promovidas durante o mês de março, marcado pelo Dia Internacional da Mulher. Foi proposto a extração de compostos naturais, utilizando o repolho roxo para o tingimento de tecidos. Para além do experimento em si, a proposta buscou valorizar as trajetórias de mulheres negras na ciência, com destaque para a história da cientista Alice Ball. Inicialmente, os estudantes responderam a um questionário diagnóstico para identificar suas referências científicas, o que foi seguido por discussões sobre a invisibilidade das mulheres negras no campo científico. Os resultados foram expressivos: embora 78% dos estudantes afirmassem conhecer cientistas, apenas 7% conseguiram citar nomes de mulheres negras. Esse dado provocou reflexões significativas sobre o racismo estrutural e o apagamento histórico. Após essas discussões, foi realizada a prática experimental da extração de compostos naturais, utilizando o repolho roxo para o tingimento de tecidos, momento em que a trajetória de Alice Ball foi apresentada. Química e farmacêutica norte-americana, Ball foi pioneira ao desenvolver, no início do século XX, o primeiro tratamento eficaz contra a hanseníase, a partir do óleo de chaulmoogra, substância natural extraída das sementes da árvore Hydnocarpus wightiana, originária da Ásia. Ela conseguiu modificar quimicamente esse óleo, tornando-o solúvel e adequado para aplicação injetável. Embora não tenha atuado diretamente com corantes, sua pesquisa com produtos naturais estabeleceu uma conexão significativa com a atividade realizada. A educação científica, principalmente em contextos de pré-vestibular social, desempenha um papel fundamental na construção de um ensino mais representativo a partir da ampliação do repertório científico dos estudantes.
A metodologia envolveu práticas experimentais com discussões contextualizadas e resolução de questões do Enem relacionadas aos conteúdos trabalhados. Esse enfoque contribuiu para fortalecer a integração entre teoria e prática, promovendo a preparação para o vestibular em uma aprendizagem significativa, centrada no protagonismo e na reflexão crítica dos estudantes. Ao abarcar temas sociais, culturais e ambientais, o ensino de química se torna mais empoderador, especialmente para aqueles que enfrentam desigualdades históricas e sociais. Dessa forma, as práticas laboratoriais contextualizadas contribuem para a formação de cidadãos críticos e preparados para os desafios do vestibular e da vida, fortalecendo um ambiente educacional que valoriza a diversidade, a representatividade e o compromisso social.
FONTES
CARINE, Bárbara. E eu? Não sou intelectual? São Paulo: Editora Jandaíra, 2021.
CARINE, Bárbara. Como ser um educador antirracista. São Paulo: Planeta do Brasil, 2023.
CHASSOT, Attico Inácio. Alfabetização científica: questões e desafios para a educação. 2. ed. Ijuí: Unijuí, 2001.
O EXPERIMENTO
As imagens mostram as etapas do experimento de tingimento de tecidos com repolho roxo realizado no laboratório. Primeiro, o repolho roxo foi macerado com um pouco de água, utilizando gral e pistilo. Em seguida, o suco extraído do repolho foi transferido para três béqueres. No primeiro béquer, foi adicionado leite de magnésia ao suco para obter a cor verde. No segundo, adicionou-se vinagre para obter a cor rosa. No terceiro béquer, manteve-se apenas o suco de repolho roxo, que apresentou a cor roxa. Depois, os pedaços de tecido foram mergulhados nas soluções e deixados por algumas horas para o tingimento. Após esse período, os tecidos foram retirados, lavados e deixados para secar.



Carmem Geanny

Professora de Química do pré-vestibular social Futuro em Curso do Sesc +Educação de Nova Friburgo/RJ. É licenciada em Química pela Universidade Federal do Rio de Janeiro campus Macaé, mestre em Diversidade e Inclusão pela Universidade Federal Fluminense e doutoranda pelo Instituto Nutes de Educação em Ciências e Saúde da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
