A cada edição, um tema fascinante é apresentado ao leitor por meio de dez curiosidades surpreendentes. Prepare-se para descobrir fatos curiosos, histórias inesperadas e dados instigantes, todos ilustrados de maneira a dar vida a cada descoberta.
A (auto)domesticação dos cães: A domesticação dos cães remonta a mais de 15 mil anos, quando os ancestrais do cão doméstico, “protocães”, aproximaram-se naturalmente de grupos humanos em busca de restos de comida e abrigo. Com o tempo, esses animais estabeleceram laços sociais com as pessoas, que passaram a selecionar características específicas como porte, pelagem, habilidades de trabalho, entre outras.
Animais de estimação reduzem estresse e aumentam bem-estar: O contato com pets pode gerar benefícios fisiológicos e psicológicos. Estudos mostram que as interações reduzem níveis de cortisol (hormônio do estresse) e aumentam a liberação de ocitocina, relacionada a vínculos afetivos positivos.
Cães entendem sinais comunicativos humanos: Os cães são sensíveis a diversos sinais comunicativos, como postura corporal, vocalizações e direção do olhar. Também compreendem naturalmente gestos de apontar, diferentemente de chimpanzés, indicando que a domesticação influenciou sua cognição social e colaborativa.
Gatos no Egito Antigo: No Egito Antigo, os gatos, associados à deusa Bastet, ocupavam um status religioso elevado e eram até mumificados. Mas sua história é paradoxal: enquanto alguns eram venerados como animais sagrados, muitos eram criados apenas para sacrifícios rituais, mostrando um respeito condicionado e, em parte, comercializado.
Animais em terapias psicológicas: Cães, cavalos e até golfinhos são usados em terapias para ajudar pessoas com depressão, autismo, ansiedade etc. O vínculo com esses animais promove confiança, empatia e sensação de acolhimento, facilitando processos terapêuticos. Embora não substituam tratamentos convencionais, são reconhecidos como aliados valiosos (coterapeutas).
Cães reconhecem emoções humanas: Pesquisas mostram que cães conseguem identificar expressões faciais e tons de voz, reagindo a estados emocionais como alegria e raiva. Essa sensibilidade os torna companheiros sociais únicos, capazes de oferecer conforto e ajustar seu comportamento às nossas emoções.
Interações entre humanos e pombos: Há cerca de 10 mil anos os pombos convivem com humanos, já serviram em correios e guerras e hoje fazem parte de um ambiente urbano compartilhado, atuando como “biorrecicladores” (consumindo restos), mas também como transmissores de doenças, refletindo uma relação cultural e ecológica em constante mudança.

- “Fala de bebê” para cães: Quando falamos com cães, tendemos a usar voz mais aguda, ritmo lento e muitas repetições (de forma parecida com a fala dirigida a bebês). Esse estilo de comunicação facilita a atenção dos animais e fortalece o vínculo afetivo.
A cultura molda nossa relação com animais: A forma como tratamos os animais varia conforme crenças e tradições culturais. Na Índia, por exemplo, as vacas são vistas como sagradas e protegidas, enquanto em muitas outras culturas são criadas principalmente para consumo. Da mesma forma, em algumas sociedades (ex: partes da China e na Coreia do Sul), é normal consumir carne canina.
Sepultamentos com cães na pré-história: Achados arqueológicos revelam que humanos enterravam cães ao seu lado há mais de 14 mil anos. Esses rituais sugerem que os animais já tinham um papel simbólico, espiritual ou afetivo dentro das comunidades. Não eram apenas utilitários, mas companheiros profundamente valorizados.
FONTES
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CABRAL, F. G. S. Produção comunicativa de cães (Canis familiaris) para acesso a alimento visível e oculto. 2019. Dissertação (Mestrado em Psicologia) – Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo, São Paulo. DOI: 10.11606/D.47.2020.tde-13032020-154321.
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QUEM É O AUTOR?

FRANCISCO CABRAL
Biólogo (IB-USP) e Mestre em Comportamento Animal pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IP-USP), onde atualmente cursa o doutorado. Sua pesquisa investiga como o vínculo afetivo e o apego influenciam a comunicação entre cães e seus tutores, utilizando como referencial a Teoria do Apego (Bowlby). Também é graduando em Psicologia (UNIP) e membro do Laboratório de Etologia, Desenvolvimento e Interações Sociais (LEDIS-USP) e do Laboratório de Etologia Canina (LECA-UNIFESP).
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Saiba mais sobre palavras que podem parecer difíceis ou até ser conhecidas, mas cujos significados, muitas vezes, nos escapam. Trazemos explicações claras e interessantes para termos utilizados no dossiê que merecem uma atenção especial, ajudando você a expandir seu vocabulário e compreensão.
BiorReclicadores
É o nome dado a animais (como pombos, urubus e insetos) que consomem restos orgânicos e contribuem para limpar o ambiente urbano. Ao se alimentarem de resíduos, atuam como uma forma natural de “reciclagem biológica”.
Cortisol
Conhecido como o “hormônio do estresse”, o cortisol é liberado pelo organismo em momentos de tensão ou ansiedade. Embora seja essencial para nos manter alertas, níveis altos por longos períodos podem causar cansaço, irritação e até problemas de saúde.
Deusa Bastet
Figura central da mitologia egípcia, Bastet era representada como uma mulher com cabeça de gato. Símbolo de proteção, fertilidade e alegria doméstica, foi cultuada especialmente na cidade de Bubástis. Sua popularidade ajudou a elevar o status dos gatos no Egito Antigo, onde muitos eram venerados, mumificados e associados à presença da deusa.
Ocitocina
É um hormônio associado a sentimentos de afeto, confiança e bem-estar. Produzido naturalmente pelo corpo em situações de contato social e carinho, como abraços, amamentação ou brincadeiras com pets. A ocitocina ajuda a reduzir o estresse e fortalecer vínculos emocionais. Por isso, costuma ser chamada de “hormônio do amor”.
