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Revista Humanos tem o prazer de apresentar uma entrevista exclusiva com Giselle Beiguelman, artista, curadora e professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, cuja trajetória se destaca por cruzar arte, ciência e ativismo digital. Em suas obras, Beiguelman desafia os limites da taxonomia científica e da memória histórica, questionando os imaginários coloniais que ainda moldam nossa relação com a natureza, o conhecimento e os corpos dissidentes.
Nesta conversa, com destaque para os projetos Botannica Tirannica e Venenosas, Nocivas e Suspeitas, a artista discute como as classificações científicas carregam marcas de racismo, misoginia e antissemitismo, propondo um “jardim decolonial” que reinventa a linguagem e os sentidos atribuídos às plantas e às mulheres historicamente apagadas. A entrevista também mergulha nas possibilidades da inteligência artificial como ferramenta criativa, política e pedagógica.
Entre arte, ciência e ficção, seu trabalho nos convida a imaginar futuros possíveis e a cultivar um pensamento sensível, especialmente necessário em tempos de urgência climática e tecnopolítica.
BIOGRAFIA
Giselle Beiguelman é artista, curadora e professora da FAU-USP, reconhecida por investigar a interseção entre arte, tecnologia e sociedade. Beiguelman explora como a ciência e a estética colonialista se entrelaçam na dominação da natureza e das identidades sociais, criando novas formas poéticas e políticas por meio da arte, da inteligência artificial e da crítica ao colonialismo.
Sua exposição Bottanica Tirannica, exibida no Brasil e no exterior, incluindo a Bienal de Karachi (Paquistão), Museu Sartorio (Itália), Koffler Arts (Toronto) e outros espaços, questiona as nomenclaturas científicas que perpetuam preconceitos, propondo um jardim decolonial que subverte a taxonomia colonial e suas hierarquias.
Já a mais recente, Venenosas, Nocivas e Suspeitas, no Centro Cultural FIESP, utiliza inteligência artificial para criar obras que associam plantas demonizadas a mulheres apagadas da história da ciência e da arte.

Em suas obras, há uma relação forte entre natureza e cultura. Como pensar essa união pode ajudar a romper com o imaginário colonialista que ainda estrutura a arte e a ciência?
Foi o colonialismo quem inventou a separação entre natureza e cultura, forjando a ideia de uma natureza como “terra virgem” pronta a ser conquistada, dominada e expropriada. Hoje, conforme nos ensinam os estudos antropológicos, das biociências e as cosmovisões indígenas, sabemos que esta separação, outrora tomada como um binômio antagônico, não só carece de fundamento, como está na base da catástrofe ecológica que estamos vivemos. É difícil discordar aqui do antropólogo Philippe Descola quando ele diz que essa separação radical entre natureza e cultura, típica da modernidade, acaba criando uma diferença básica: humanos seriam aqueles com direitos, enquanto os não humanos (sejam naturais ou artificiais) ficam sem direitos próprios. Mas é importante lembrar também que, nesse pensamento, “humanos” não representam simplesmente uma categoria universal e genérica, designam um conjunto hierarquizado que confere ao humano homem branco um lugar privilegiado de comando e poder sobre os outros corpos e seres vivos. Nessa direção, tenho procurado em meus trabalhos mais recentes investigar um campo de extranatureza, como um campo capaz de tensionar o binarismo natureza e cultura, com ocupações provisórias de uma tangível natureza-cultura ou cultura-natureza.
“Foi o colonialismo quem inventou a separação entre natureza e cultura, forjando a ideia de uma natureza como “terra virgem” pronta a ser conquistada, dominada e expropriada.”
Muitos dos nomes preconceituosos mapeados em Botannica Tirannica expõem a intersecção entre racismo, misoginia e antissemitismo. De que forma a arte pode ser um espaço de elaboração e cura diante dessas violências simbólicas?
Não tenho certeza de que a arte pode elaborar espaço de cura, mas acredito na sua potência em colocar as perguntas que ainda não foram feitas ou reivindicá-las a partir de diferentes enunciados. Botannica Tirannica foi um trabalho que ficou maior do que eu. Sintonizado a um debate que ainda encontra muitas resistências (a necessidade de repensar e refazer as nomenclaturas botânicas), foi exposta em vários países, sempre com a pesquisa atualizada em relação às floras locais e suscitando muitas discussões e ponderações do público que se via, sobretudo diante dos nomes comuns, contaminado a tal ponto pelo imaginário colonialista e racista, que sequer se dava conta da evidência do preconceito embarcado nas suas maneiras de repetir determinados nomes, sem nunca ter percebido o que enunciavam, a cada vez que chamavam uma planta de “judeu errante”, “ciganinha”, “chá de bugre”, “beijo de puta”, “bunda-de-mulata”, só para ficar entre alguns nomes comuns nacionais…
“Essa separação radical entre natureza e cultura, típica da modernidade, acaba criando uma diferença básica: humanos seriam aqueles com direitos, enquanto os não humanos (sejam naturais ou artificiais) ficam sem direitos próprios.”

Em Venenosas, Nocivas e Suspeitas, você conecta mulheres e plantas historicamente apagadas, com o uso da Inteligência Artificial IA. Como essa articulação entre arte, ciência e tecnologia ajuda a recontar histórias silenciadas?
Em Venenosas, Nocivas e Suspeitas, conectar mulheres e plantas historicamente apagadas com o uso da Inteligência Artificial foi uma estratégia para recontar histórias silenciadas, enfrentando diversos desafios. Por um lado, muitas das plantas que busquei reimaginar – como cannabis e mandrágora – são carregadas de estigmas e preconceitos. Frequentemente, as plataformas da Inteligência Artificial generativa interpretavam meu trabalho como violação de suas diretrizes, ameaçando bloquear minhas contas.
Por outro lado, criar retratos especulativos dessas mulheres, especialmente retratadas em sua idade de morte, significou desafiar cânones algorítmicos que carecem de dados suficientes sobre mulheres com mais de 60 anos. Isso é especialmente verdadeiro em relação a mulheres negras e indígenas, cujas experiências são frequentemente marcadas por opressão e violência física e mental. Assim, ao combinar arte, ciência e tecnologia, foi possível confrontar tanto limitações técnicas como preconceitos culturais, resgatando narrativas que questionam criticamente quem tem voz e presença nos registros históricos oficiais.
Suas obras atravessam territórios entre arte e ciência, mas também entre o real e o imaginário. Como você vê a potência poética de criar plantas “mutantes”, “rebeldes” e “impronunciáveis” com Inteligência Artificial? Que papel a ficção desempenha nesse processo?
Criar plantas “mutantes”, “rebeldes” e “impronunciáveis” com Inteligência Artificial amplia a vontade que comentei acima de problematizar um campo de extranatureza, permitindo desafiar o imaginário dominante e propor novas formas de existência simbólica. A ficção aqui desempenha um papel crucial, ao oferecer possibilidades de reconfiguração simbólica e narrativa dessas plantas, transcendendo limites estabelecidos pela história científica tradicional. Ao navegar entre o real e o imaginário, a ficção torna-se uma ferramenta para questionar, criticar e expandir nossa percepção sobre o que consideramos natural ou legítimo, abrindo espaços para imaginar outros futuros.

Impressão em acrílico, 30×40 cm, 2024.
A exposição também propõe um diálogo com jovens e crianças sobre ciência, arte e história. Qual o papel da educação nesse processo de letramento digital e sensível, especialmente diante da massificação da Inteligência Artificial?
Sou professora e defendo que a educação é a fórmula para a transformação. Quanto ao letramento digital, tenho dito com uma certa frequência que essa deveria ser uma política pública essencial para o século 21. Não se trata simplesmente de ensinar crianças e jovens a programar, mas de capacitá-los a LER criticamente o ambiente digital. Quando fomos alfabetizados na língua portuguesa, nossas professoras (eram sempre mulheres, certo?) não tinham a pretensão de nos transformar nos futuros Itamar Vieira Junior ou Clarice Lispector, mas nos deram ferramentas para decodificar contextos variados, reconhecendo diferentes sentidos e representações em textos que, tecnicamente, são muito semelhantes, como uma bula de remédio e uma página literária (frases corridas sobre uma superfície branca e retangular). No digital, esse letramento ainda é precário, resultando em um analfabetismo que uniformiza informações distintas, pois não reconhece as diferenças entre linguagens, representações e estéticas. Promover esse letramento sensível e crítico é fundamental para navegar com discernimento em um mundo marcado pela massificação da inteligência artificial. O forte impacto de público da exposição (que chegou a 85 mil visitantes!) e a aderência de jovens e crianças me mostra que essa ideia da urgência de um letramento digital é factível e possível. Falta vontade política e respeito a essa figura que é basilar para todos: o/a professor/a.
“Conectar mulheres e plantas historicamente apagadas com o uso da Inteligência Artificial foi uma estratégia para recontar histórias silenciadas.”
Por fim, que imaginário você espera que surja quando arte e inteligência artificial se encontram de forma crítica e criativa?
Acho que respondi na primeira pergunta.

Retrato de Luzia Pinta, 40 anos, criado por IA a partir de textos de Marcussi, Mello e Souza, Mott, Del Priore e do retrato imaginário de Guignard. 2024.
Retrato de Maria Sibylla Merian, aos 70 anos, criado com IA, a partir de imagens de arquivo da artista-cientista jovem. 2024.
Retrato de Trótula de Salerno, aos 65 anos, criado com IA, a partir de imagens de arquivo da artista-cientista jovem. 2024.
OBRAS DA AUTORA
MEMÓRIA DA AMNÉSIA: POLÍTICAS DO ESQUECIMENTO
Giselle Beiguelman reúne ensaios textuais e visuais no campo das estéticas da memória, que orbitam em torno de trabalhos experimentais e de pesquisa desenvolvidos em intervenções artísticas, propondo uma reflexão em torno do direito à memória em contraposição às sistemáticas políticas de esquecimento.
POLÍTICAS DA IMAGEM: VIGILÂNCIA E RESISTÊNCIA NA DADOSFERA
Imagem digital, selfies, memes, deep fake, internet das coisas, inteligência artificial, censura digital: todas essas novidades do mundo contemporâneo são analisadas por Giselle Beiguelman para descrever (e ao mesmo tempo guiar o leitor a reconhecer no mundo a sua volta) o papel da imagem nas relações sociais hoje. A autora propõe, ao longo de seis ensaios inéditos, uma reflexão sobre o estatuto da imagem no mundo contemporâneo. Desde o surgimento da fotografia, e depois do cinema, que o universo das imagens técnicas não conhecia um processo de transformação tão radical quanto o do nosso tempo. As imagens tornaram-se as principais interfaces de mediação do cotidiano, ocupando a comunicação, as relações afetivas, a infraestrutura, as estéticas da vigilância e os sistemas de escaneamento dos corpos na cidade. Ao falar em políticas da imagem, ela defende que as imagens são, para além de lugar da transmissão de ideias e linguagens, o próprio campo das tensões e disputas políticas da atualidade. Beiguelman associa a invenção e a distribuição massiva de smartphones a um novo regime de vigilância, não mais instituído pelo Estado, mas resultado da captação sistemática de dados pessoais, oferecidos deliberadamente pelos usuários às plataformas de mídias sociais – a dadosfera. A incontável produção de imagens nos feeds e stories de redes sociais, câmeras de vigilância e registros oficiais configuram, segundo ela, uma nova estética da vigilância.
Futuros Possíveis: arte, museus e arquivos digitais
Este livro discute estratégias e metodologias para o armazenamento e preservação de arte digital e processos de digitalização de acervos, incluindo também estudos sobre novas formas de organização e disponibilização das informações em sistemas de visualização de dados. Além disso, Futuros Possíveis apresenta estudos de caso e reflexões sobre o surgimento da estética do banco de dados e o campo emergente da curadoria de informação. O livro foi produzido em coedição com a Edusp.
