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Revista Humanos tem o prazer de apresentar uma entrevista exclusiva com Malcom Ferdinand, filósofo, engenheiro e pesquisador franco-martiniquenho, cuja reflexão propõe uma ecologia radicalmente decolonial. Em suas obras, entre elas Uma ecologia decolonial: pensar a partir do mundo caribenho, Ferdinand articula a crítica ao colonialismo com as urgências ecológicas contemporâneas, mostrando como a destruição ambiental está intrinsecamente ligada às feridas históricas da escravidão e da colonização.
Nesta conversa, o autor aborda as múltiplas dimensões do território: física, simbólica e política, como espaços marcados pela memória colonial e pelas possibilidades de reparação. A partir da experiência caribenha, ele propõe novas formas de habitar o mundo, em que o cuidado da Terra se une às lutas por justiça social e histórica.
Ao pensar as fronteiras, os deslocamentos e as resistências que atravessam o planeta, Ferdinand nos convida a imaginar uma ecologia que reconheça as interdependências entre povos, territórios e histórias. Em diálogo direto com o tema desta edição, Territorialidades, sua reflexão amplia o horizonte do pensamento ecológico, propondo um habitar plural, sensível e politicamente comprometido.
BIOGRAFIA
Malcom Ferdinand nasceu em 1985 na França continental e viveu a infância e a adolescência na Martinica. Formou-se em engenharia civil pela University College London e se especializou em engenharia ambiental durante um intercâmbio na Austrália. Após atuar em uma missão humanitária em Darfur, no Sudão, percebeu que os desafios ecológicos exigiam uma abordagem que ultrapassasse os limites da técnica, levando-o a iniciar um percurso filosófico e político.
Concluiu o mestrado em Filosofia e Ciência Política na Universidade Paris VII, com a monografia Penser l’écologie depuis le monde caribéen, que mais tarde se tornou a base de seu livro Uma ecologia decolonial. Autor de ensaios que articulam ecologia, história e justiça social, Ferdinand é hoje uma das vozes mais influentes do pensamento decolonial contemporâneo.

MALCOM FERDINAND
Em Uma ecologia decolonial, você fala das “feridas” deixadas pela modernidade colonial. Quando pensamos em territorialidades, podemos dizer que o território é também uma ferida? Como o espaço – físico, simbólico ou político – guarda as marcas do colonialismo?
Existem várias maneiras de pensar e fazer um território. Se considerarmos que o território constitui um espaço delimitado através da cartografia euromoderna, imposta pela força durante as colonizações desde o século XV, então sim, podemos dizer que esse território é uma ferida. Ferida no sentido de que o habitar, essa maneira de habitar a Terra, é estruturada por uma violência contra os seres humanos, particularmente contra os povos indígenas, e uma violência em relação aos seres vivos em geral, os ecossistemas, as paisagens e a biodiversidade. Na colonização europeia de Abya Yala (as Américas) perdura uma ferida, compreendendo genocídio, ecocídios e desestruturação de sociedades. Nesse sentido, a configuração das paisagens das Américas, do Caribe, da África, da Ásia e da Oceania, com suas monoculturas, minas e barragens, conservam os estigmas do colonialismo. Se considerarmos que o território constitui, ao contrário, o meio de vida físico, político, simbólico e imaginário cultivado pelos povos indígenas do mundo inteiro, então seria muito curioso considerá-lo como uma ferida. Pelo contrário, no âmbito das teorias feministas do corpo-território, esse território que vai da terra aos corpos das mulheres encarna um lugar a ser defendido, a ser preservado. No fundo, a ferida colonial e moderna não reside tanto no território em si, mas na recusa de uma determinada ideia de território em permitir que outros, majoritariamente pessoas racializadas, generificadas e povos indígenas, possam habitar a Terra a partir de seus próprios territórios.
Você propõe pensar a ecologia a partir do Caribe, um território fragmentado, múltiplo e atravessado por histórias de deslocamento. Como essa perspectiva caribenha pode inspirar novas formas de pensar o pertencimento e o cuidado com a Terra?
Não creio ter utilizado em meus escritos a ideia do Caribe como um território fragmentado. Pelo contrário, a noção de Arquipélago (tão cara a Edouard Glissant) lembra as continuidades entre essas ilhas do Caribe, de modo que, embora sendo várias, elas compõem um todo. O poeta jamaicano Kamau Braithwaite lembra que “a unidade do Caribe é submarina”. Assim, em nosso pensamento sobre o Caribe, é importante sair de um foco nacional e centrado nas partes emersas da terra. Eis já um primeiro deslocamento sugerido por esse mundo caribenho. O Caribe é, ao mesmo tempo, um e muitos. Assim, existem dentro do próprio Caribe várias maneiras de se relacionar com a Terra e de cuidar dela. Creio que uma das principais pistas propostas pelas experiências caribenhas no mundo (que não se limitam ao espaço geográfico do Caribe) é manter juntas, ao mesmo tempo, as violências históricas de desumanização de povos pelas colonizações e diferentes formas de escravidão, e a exploração capitalista desses ecossistemas e seus recursos. Isso significa que a ecologia ou o cuidado com a Terra não podem mais ser pensados de maneira desconectada de uma exigência de emancipação, de justiça, ou até mesmo de dignidade ancestrais e contemporâneas, após o fim da colonização e da escravidão. Tal é a proposta de uma ecologia decolonial.
Em um contexto global de fronteiras reforçadas e crises migratórias, que novas territorialidades estão sendo criadas pelas populações deslocadas? Podemos ver nelas formas de resistência ecológica e política?
As migrações são bem mais antigas do que as ditas “crises migratórias”. É preciso analisar em cada contexto de enunciação o sentido ou o elemento que causa a crise, a fim de propor um discurso preciso. Uma coisa permanece um tanto perturbadora na Europa e nos Estados Unidos. Parece que o que constitui uma crise migratória, sobretudo quando essas migrações são em parte causadas por desequilíbrios ambientais e climáticos, decorre da recusa seletiva de hospitalidade em relação aos cidadãos dos países do Sul. A mudança climática se torna perigosa na medida em que implicaria, por parte dos países ocidentais, confrontar sua própria recusa em oferecer um acolhimento digno àqueles que colonizaram historicamente e cujos recursos continuam a explorar. O que se recompõe, então, não é, a meu ver, um novo território com suas formas de resistência, mas sim a continuidade da Terra como território onde a fuga não é mais possível. A tarefa da composição de um mundo, quer queiramos ou não, torna-se a única maneira de tocar a Terra.
Na sua visão, qual o papel da arte na construção de uma ecologia decolonial? Como artistas e pensadores podem contribuir para reinventar os imaginários do território?
Diante de uma Terra devastada, dominada por um capitalismo compulsivo, reforçado pelo vertiginoso desenvolvimento da inteligência artificial, diante de uma reafirmação da violência das fronteiras, dos fundamentalismos, da ampliação do fascismo das sociedades, outras maneiras de fazer o mundo precisam ser inventadas. Os artistas não estão fora desses processos, tanto no nível econômico – a condição de produção das obras – quanto no nível estético. Há uma responsabilidade artística a ser assumida, de modo a tornar tangíveis as possibilidades de um outro mundo, de uma outra maneira de habitar a Terra, mesmo que pareçam utópicas devido ao enorme desequilíbrio nas relações de poder entre as superpotências e os condenados da Terra. Sem dúvida, é interessante deixar de lado por um momento as grandes instituições clássicas da arte moderna, que assistiram a todas essas revoluções ao longo de sua existência, e passar a ver o que constitui arte nos lugares, territórios, espaços e povos marginalizados por essas perturbações. Penso, por exemplo, nos povos indígenas, nas periferias e bairros pobres do mundo, penso no fabuloso trabalho do Museu das Favelas de São Paulo. Em outras palavras, não podemos simplesmente dizer que a arte tem um papel na edificação de uma ecologia decolonial sem repensar as próprias maneiras de fazer e produzir arte, ou sem garantir seu acesso àqueles que são excluídos do mundo.
Muitos debates sobre o clima ainda ignoram as dimensões coloniais da crise ambiental. Como articular as lutas por justiça climática e por reparação histórica dentro de um mesmo horizonte político e ético?
Frequentemente me fazem essa pergunta após a publicação do meu livro Uma Ecologia Decolonial: Pensar a Ecologia a Partir do Mundo Caribenho. A pessoa que pergunta espera então em minha resposta uma explicação racional, uma argumentação que proponha aliar a luta pela justiça climática e a reparação histórica (ou a exigência decolonial) dentro de um mesmo horizonte. Você encontrará isso no meu livro. Diante dessa questão, proponho na maioria das vezes inverter a pergunta e, assim, inverter o ônus da prova: Como é possível que as mudanças climáticas sejam completamente independentes da constituição colonial da modernidade? Ou ainda, como se inventou a ideia de que clima e colonialidade não fariam parte do mesmo problema? Essa é a minha resposta.
Você escreve sobre a necessidade de “reaprender a habitar o mundo”. O que significa, hoje, habitar de forma justa e plural? E como podemos criar territórios, materiais e afetivos, que acolham essa multiplicidade de modos de existir?
Os territórios plurais já estão aí. Os povos indígenas, apesar das predações e desumanizações sofridas, conseguiram transmitir por gerações maneiras de habitar o mundo que se opõem ao modelo colonial, patriarcal e extrativista que governa o mundo. Assim, antes de tentar imaginar ex-nihilo (do nada) o que poderia ser imaginar os territórios a serem criados, é preciso encontrar o que é, o que persistiu, e sobretudo estabelecer as condições materiais, políticas e jurídicas para permitir essa pluralidade. A resposta é, portanto, necessariamente política, ou até mesmo cosmopolítica. Como não recolher de forma extrativista os saberes e as experiências dos povos indígenas apenas porque eles parecem oferecer respostas aos desafios ecológicos contemporâneos, mas, sim, acolher todos os povos da Terra no interior de uma organização do mundo. Tal foi, a meu ver, um dos símbolos mais fortes da COP 30 de Belém, no Brasil: o dia em que integrantes do povo Kayapó, acompanhados por várias centenas de manifestantes, se fizeram presentes, forçando portas na tentativa de serem ouvidos. Não poderemos, portanto, responder a essas questões enquanto nossas organizações políticas nacionais e internacionais não permitirem condições de existência dignas aos povos indígenas, às mulheres, às pessoas marginalizadas social e racialmente. Compor um mundo de vários mundos, como defendem os proponentes da tese do pluriverso, é a tarefa política imperativa do nosso tempo.
OBRA DO AUTOR

UMA ECOLOGIA DECOLONIAL
PENSAR A PARTIR DO MUNDO CARIBENHO.
É para cuidar da ferida aberta pelas inúmeras crises engendradas pelo sistema capitalista que o martinicano Malcom Ferdinand propõe uma ecologia decolonial, uma abordagem interseccional extremamente sagaz que reúne o ecológico com o pensamento decolonial, antirracista, em uma crítica contundente ao “habitar colonial da Terra”. Nesta análise urgente, Ferdinand critica o que chama de “dupla fratura colonial e ambiental da modernidade”, de que resultam, por um lado, as teorias ecologistas que desconsideram o legado do colonialismo e da escravidão; por outro, os movimentos sociais e antirracistas que negligenciam a questão animal e ambiental. Como mostra o autor, tal fratura só enfraquece as demandas desses movimentos, uma vez que a exploração do ser humano e da natureza caminham lado a lado. Para tanto, escolhe como centro de seu pensamento as regiões caribenhas, com seus modos de vida crioulos e suas formas de resistência – entre elas a marronagem, uma estratégia de aquilombamento para fora do mundo colonial. Com um prefácio de Angela Davis que situa historicamente o conceito de justiça ambiental, esta obra oferece uma aproximação para pensar um navio-mundo que não mais atire algumas pessoas no porão, condenando-as a uma sobrevida precária sujeita a doenças, fome e morte, enquanto oferece a outras a perspectiva de uma viagem segura e lucrativa no convés, possibilitada justamente pelo assujeitamento daqueles no porão. O livro recebeu o prêmio da fundação de ecologia política de 2019.
Uma ecologia decolonial:
Pensar a partir do mundo caribenho.
ISBN: 978-65-86497-96-0
Editora: Ubu
Tipo: brochura
Formato: 16 × 23 cm
Páginas: 320
