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Reportagem

ROBERTA CARVALHO: PROJETAR MUNDOS NO MUNDO

por LEONARDO LICHOTE
15 de abril de 2026
/ Número 8
ROBERTA CARVALHO: PROJETAR MUNDOS NO MUNDO
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Uma árvore projetada como útero. Um corpo em posição fetal, nu, aninhado no miolo de sua copa, luz e sombra compondo o contorno de uma imagem que só se completa na matéria viva da árvore. Foi ali, num gesto de invenção e urgência, que a artista paraense Roberta Carvalho encontrou o caminho de um trabalho que já habitava nela. Uma árvore como tela – mas não como suporte: como presença. Como discurso. Como matéria sensível que interfere na imagem e na qual a imagem interfere. Uma tela com história, com carne, com memória.

Roberta chegou à imagem pela palavra. Na adolescência, interessou-se pela poesia visual, na concretude inventiva de Arnaldo Antunes e dos irmãos Campos. “O haikai também me influenciou muito”, lembra. “É uma fotografia: um recorte de tempo e espaço congelado em poucas palavras”. Da palavra à imagem, o salto se deu por experimentação. Colagens, sobreposições, vídeos, fotografia com câmeras emprestadas. E sempre, desde o início, o desejo de fundir linguagens – palavra, imagem, corpo, cidade. Uma busca que se afasta do cânone da imagem projetada em sala escura, sobre tela limpa, e que se volta para o mundo como superfície viva, cheia de relevos e histórias.

Esse desejo se intensifica na universidade, novamente pelas Letras – curso que ela escolheu, movida pela paixão pela literatura: “Mas eu fiz só dois anos, porque eu entendi que o curso era muito pra licenciatura, que não era o que eu queria exatamente”. Migrou para as artes visuais já mergulhada em experimentações com vídeo e fotografia. “Me encantei com a videoarte. Fui entender anos depois que o que me atraía era o cinema expandido: imagem para além da tela, em contato com a cidade, com as texturas urbanas, com a arquitetura, com a natureza”.

A gênese do trabalho com projeções sobre árvores, que se tornaria marca de sua trajetória, nasceu de um acaso. Ou de um trauma, talvez. Em parceria com a artista Keyla Sobral, sua sócia à época num escritório de arte e design, Roberta havia filmado um curta-metragem experimental, “Luz”. As fitas, porém, sumiram. Restaram apenas fotografias do filme.

Anos depois, ao ser convidada para uma intervenção visual num espaço que não tinha parede, mas dava para uma árvore e para o rio, ela teve uma ideia. “Fui testar a projeção de uma daquelas fotos de “Luz” na árvore. E ficou impressionante”. Era a imagem do corpo nu em posição fetal – a mesma que, projetada ali, ganhou o título “Renascer”. O corpo humano envolto pela árvore-mãe. A imagem transmutada em potência poética e simbólica pelo suporte vivo.

“Ali eu entendi que a árvore também não é um espaço neutro. Como os muros, as fachadas, as arquiteturas abandonadas que eu já vinha usando, ela tem um discurso próprio. É um outro ser com o qual a imagem se relaciona”.

O projeto se expandiu. De imagens de seu próprio corpo ou de pessoas próximas interagindo com a árvore, Roberta passou a trabalhar com comunidades ribeirinhas, como na Ilha do Combu, em Belém, a partir de 2009. Ministrava oficinas de fotografia para crianças com câmeras simples – mais do que ensinar técnica, tratava-se de conversar sobre olhar, sobre mundo, sobre presença. As oficinas resultavam em exposições e projeções noturnas, muitas vezes com os próprios rostos projetados em grande escala. “As reações são sempre muito fortes: riso, choro, susto. Mas o mais importante é o vínculo. Há pessoas que conheci nesses trabalhos que hoje são amigas, irmãs. Me transformaram”.

A tecnologia, em sua obra, não aparece como fetiche nem como exibição de domínio técnico, mas como ferramenta de escuta. O mapeamento – ou mapping, como ficou conhecida a técnica de projetar sobre formas irregulares, diferentes da clássica tela retangular – veio antes do software. Quando ainda não dispunha da tecnologia para moldar a imagem aos contornos do espaço, Roberta fazia gambiarras analógicas. Colocava fitas adesivas na lente do projetor para tentar recortar a imagem. Nesse sentido, a artista é também uma hacker: das formas, dos suportes, das linguagens.

“Existia um pensamento de software antes do software.” Com o tempo, estudou e aprendeu os programas em viagens rápidas a São Paulo, trazia os conhecimentos num laptop e experimentava por conta própria em Belém – onde os projetores eram raros e circulavam como preciosidades, de forma comunitária. Ela lembra que, para provocar os efeitos desejados, disparava projeções simultâneas manualmente – “dedo code”, como brinca, em vez de time code. Tudo para moldar a imagem ao espaço e fazê-la dialogar com a superfície onde pousava.
Roberta cita o pesquisador e teórico da tecnologia Arlindo Machado. “Ele diz que o artista é aquele que consegue vencer o discurso das máquinas. Porque as máquinas têm os seus próprios discursos. Quando a gente trabalha com arte que vem do digital, das tecnologias, as máquinas imprimem a sua própria fala. Então, o artista é aquele que consegue recriar esse lugar para o seu próprio discurso”.

Sua obra busca, portanto, outros discursos, outras cosmologias. Está ancorada em memórias, presenças, saberes invisibilizados. Trabalha com imagens e tecnologias para reconectar pessoas, lugares, tempos.

“Não existe uma Amazônia. Existem muitas. A das cidades, das florestas, dos rios, das populações tradicionais – e também a Amazônia contemporânea, tecnológica, conectada.”

A Amazônia, para Roberta, é casa e conceito. “Não existe uma Amazônia. Existem muitas. A das cidades, das florestas, dos rios, das populações tradicionais – e também a Amazônia contemporânea, tecnológica, conectada”. Seu trabalho se recusa a aceitar uma visão exótica, estereotipada ou idealizada da região. “Quero construir outras imagens, outras narrativas. A Amazônia é também metrópole, arquitetura, concreto, trânsito. É tudo isso coexistindo”.

Daí sua relação intensa com o espaço urbano – tema central de projetos como “Transbordas”, realizado em São Paulo durante a pandemia. Vivendo na capital paulista, Roberta se impressionou com a relação da cidade com seus rios – águas soterradas, abafadas, esquecidas. Projeções em empenas de prédios da Lapa traziam imagens de rios de águas barrentas correndo – tensionando verticalidade urbana e fluidez silenciada.

Esse mesmo pensamento motivou a criação do festival Amazônia Mapping, que fundou ao lado da cantora Aíla. “A ideia era debater as cidades amazônicas a partir de visões decoloniais. As arquiteturas nos impõem histórias. Quando projetamos sobre elas, criamos novas visualidades, novos discursos para esses lugares”.

Entre seus trabalhos marcantes, Roberta destaca o “Symbiosis”, uma série de intervenções com árvores e rostos amazônicos; o “Guamá”, barco multimídia que cruzava os rios de Belém levando arte, oficinas e projeções para comunidades ribeirinhas; e a direção artística da Nave, no Rock in Rio 2022, que reuniu mais de 50 artistas amazônicos em um espetáculo de som e imagem.

“Senti que era preciso ocupar esse espaço e andar em bonde.”

“Senti que era preciso ocupar esse espaço e andar em bonde”, diz. Foi o que fez na Nave, onde reuniu mais de 50 artistas amazônicos em um gesto coletivo de visibilidade e afirmação. Essa vocação agregadora, que pensa arte como rede e território comum, está também no apoio a festivais como o SSA Mapping, na Bahia, onde colaborou na curadoria e concepção. Em todos esses movimentos, Roberta segue bordando uma cartografia afetiva – que se projeta, sim, sobre muros, árvores, rios e fachadas, mas que começa sempre no encontro com o outro.

Em 2025, Roberta trabalha em novos projetos. Entre eles, “Amazônia imersiva”, uma exposição de arte contemporânea amazônica que envolve o espectador – a direção artística é sua e de Aíla. Já em “Re-floresta”, que ocupa a sala imersiva do Museu da Imagem e do Som do Ceará, seu trabalho dialoga com a obra e o pensamento de Ailton Krenak, que será tema de outra exposição do espaço. Em ambos os projetos, se reafirma a vocação da arte da paraense: abrir espaço para outras visualidades sobre o mundo – e, com elas, outras formas de se existir nele.

 

Foto: Mônica Ramalho

Leonardo Lichote
Jornalista e crítico de música. Trabalhou
n’O Globo e hoje colabora com publicações
como Folha de S. Paulo, Piauí e Traços.

Tags: ArteMeio ambienteReflexões
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