COMO VOCÊ VÊ A CONTRIBUIÇÃO DAS CONEXÕES INVISÍVEIS DAS FLORESTAS PARA NOSSA COMPREENSÃO COLETIVA DE MUNDO?

Lembro que quando a minha irmã nasceu, a minha mãe plantou uma oliveira – Olea europaea cerasiformis – na frente da nossa casa. Era bonito olhar para ela, porque, à medida que a árvore crescia, víamos nossa família crescer também. Hoje, 20 anos depois, eu olho para os frutos que ainda caem no chão, pintando de violeta a terra batida da rua. A relação que criamos com uma árvore pode parecer individual, mas será mesmo que alguma árvore cresce sozinha?
Descobri a floresta quando tinha seis anos, morando no interior do Ceará, encontrar uma floresta parecia um acontecimento. Com o tempo, entendi que as árvores não apenas crescem juntas, mas se comunicam, trocam nutrientes, criam redes invisíveis de cuidado. Os cientistas chamam de Wood Wide Web – conceito usado para explicar o sistema subterrâneo protagonizado por fungos que conectam uma floresta inteira.
Às vezes, penso que não deveria ser necessário usar a ciência para falar sobre isto, mas vivendo em tempos de negacionismo, preciso reafirmar o que as árvores já sabem: nada sobrevive sozinho.
Durante muito tempo, nos canais das publicações tradicionais, a literatura, a arte e a ciência ocuparam cadernos diferentes. Apesar da relação intrínseca entre elas, há quem diga que seguem distantes. Mas a realidade mostra que precisamos de múltiplas linguagens para falar sobre a nossa relação com o planeta.
Assim como as árvores não crescem isoladas, as culturas também não. Rizoma, um conceito que Edouard Glissant desenvolve, é uma metáfora para pensar identidades que não seguem uma linearidade, que se espalham de maneira descentralizada: rizomática.
Assim como a Wood Wide Web, onde raízes e fungos estabelecem uma rede subterrânea de trocas, a identidade rizomática de Glissant aposta no emaranhado. Assim como uma floresta cresce por meio de conexões invisíveis, Glissant propõe uma visão do mundo em que as culturas se fortalecem na relação. E eu digo: Para isso também é preciso dar-se ao trabalho de se olhar.
Confio que a arte e a literatura são fissuras que permitem passar uma luz que toca as pessoas. Elas nos ajudam a entender, pelo sensível, o que a ciência nos conta e também o que os povos tradicionais já sabiam há séculos.
A floresta não precisa de palavras para se comunicar e, ainda assim, cria. A relação que construí com a oliveira, naquela rua de terra batida no meio do sertão “enflorestado”, me ensinou algo essencial: nenhuma árvore é uma ilha. Toda vida é relacional.
Nossa compreensão coletiva do mundo precisa reconhecer as conexões invisíveis que nos sustentam, sejam elas biológicas, sociais, culturais ou espirituais.
A AUTORA

PÂMELA QUEIROZ
Jornalista. Pesquisa as interseções entre arte, ciência e saberes populares. Constrói pontes entre território, memória e identidade, apostando em múltiplas linguagens para contar histórias que conectam pessoas e paisagens. Criou o Caatingueira, um podcast de ciência, sobre biomas, mulheres e saberes populares. Desenvolve projetos de palavras, imagens e som para diferentes plataformas.

